Smartphone e galinhas

O senhor Artur Mainato Randim já não quer ouvir falar de guerra. O tempo ajudou a esquecer os dias terríveis e agora só quer pensar na sua machamba e olhar para o futuro. É um dos DDR, as pessoas que entraram no programa de desarmamento, desmobilização e reintegração, resultado do acordo de paz de Maputo assinado em 2019.

O senhor Artur vive na comunidade de Missoche, no distrito de Dôa, na província de Tete.

Antigamente produzia milho, amendoim, feijão manteiga e nehmba, bananeiras e cana-deaçucar. Mas o seu sonho era cultivar tomate e repolho.

Com a chegada do DELPAZ –  o programa do Governo de Moçambique financiado pela União Europeia –  no distrito de Dôa, o seu sonho materializou-se.

Através da Fundação SEPPA – membro do consórcio que trabalha com a Agência Italiana de Cooperação no desenvolvimento (AICS) – recebeu sementes de repolho, tomate e feijão. Além disso, recebeu formação para produzir essas hortícolas, na sua machamba de 9800 metros quadrados.

A colheita foi generosa e com a venda das hortícolas o senhor Artur conseguiu comprar também um smartphone e cinco galinhas.

Agora mão à obra. Ele tenciona aumentar a área de produção para dois hectares e cultivar repolho, couve, cenoura e cebola, na segunda época do ano a decorrer.

“Espero mesmo que o DELPAZ perdure aqui porque muitos benefícios trouxe à nossa comunidade”, diz convicto o senhor Artur cujo sonho agora é se tornar um agricoltur modelo e até ser de exemplo para toda a comunidade.

Sonhar alto no meio do mato

No coração do distrito de Guro, encontra-se o posto administrativo de Nhamassonge. É uma terra de cerca de onze mil habitantes, conhecida pelo nome que herdou dos massonge, pequenos pepinos de casca com picos que crescem com resistência naquele solo quente e poeirento com embondeiros centenários.

É ali que vive Carlitos Eusébio Zondane, um homem de 35 anos cuja vida é feita de trabalho, sonhos e persistência.

À beira da estrada principal, muito perto da sede do posto administrativo, juntamente com outras, ergue-se a sua banca — simples, mas cheia de vida. Ali, Carlitos vende refrigerantes, pequenos alimentos e o tradicional malambe (fruto do embondeiro). Ao mesmo tempo, exerce outra função essencial para a comunidade: é agente E-mola, facilitando transações e ligando pessoas num mundo cada vez mais digital.

Mas Carlitos não parou por aí.

Movido por uma visão mais ampla, decidiu aprender uma nova profissão. Em 2024, foi selecionado para um curso de formação promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Foram apenas duas semanas, mas intensas — tempo suficiente para despertar nele uma nova vocação. Tornou-se serralheiro mecânico.

A escolha não foi por acaso. Na sua região, não existia nenhum serralheiro mecânico. Onde muitos viam uma limitação, Carlitos viu uma oportunidade.

Recentemente, deu mais um passo: abriu a sua própria minioficina de serralharia, alimentada pela energia dos painéis solares instalados na aldeia. Para Carlitos, cada peça trabalhada representa não só rendimento, mas também orgulho.

A sua determinação já o levou mais longe do que alguma vez imaginara. Pela primeira vez, apanhou um avião rumo a Maputo. Lá, em novembro de 2025 participou numa conferência organizada pelo Instituto para a Democracia Multipartária (IMD), parceiro do DELPAZ. Guarda com carinho as fotografias dessa viagem — especialmente aquelas em que aparece ao lado de Dom Dinis Sengulane e Oscar Monteiro. Sempre que as mostra, os seus olhos brilham.

“Foi maravilhoso!” — diz, sem esconder a emoção.

Apesar das conquistas, Carlitos mantém os pés firmes no chão. Cumpre com os seus impostos e trabalha diariamente para melhorar a sua arte. O seu maior desejo agora é claro: obter a licença oficial de serralheiro. “Já tenho o certificado, mas sei que preciso juntar algum valor para conseguir a licença.”

E assim segue Carlitos, entre o som do metal e o movimento da estrada, construindo o seu futuro com as próprias mãos. Num lugar onde as oportunidades são raras, ele tornou-se exemplo de que, com coragem e determinação, é possível abrir caminhos — mesmo no meio do mato.

 

Nas machambas de Sanga, entre tradição e inovação

Em Sanga, um bairro outrora cheio de vida no distrito de Guro, há poucas casas. Com o passar dos anos, grande parte dos seus habitantes mudou-se para uma zona mais próxima da vila, em busca de melhores condições — energia elétrica, água e outras facilidades. Esse novo espaço passou a chamar-se oficialmente Sanga 2, embora os habitantes tenham dado o nome de Medzachumbo. Mas nem todos partiram.

Entre aqueles que ficaram está o senhor Feniasse Pita, presidente da Associação Sinembo — “Não fui eu” — uma organização dedicada ao apoio de órfãos e idosos. Com a sua família, continuou a cultivar a terra que sempre sustentou gerações. A sua machamba, vasta e fértil, é um verdadeiro mosaico de vida: hortícolas frescas, milho e árvores de fruto que oferecem goiabas, limões, laranjas e tangerinas. Pelo mato adentro, ao pé da montanha, tem ainda colmeias melhoradas, que produzem um mel de qualidade invejável.

Foi neste ambiente que cresceu Tendai Pita, seu filho, hoje com 31 anos. Desde cedo, aprendeu os fundamentos da agricultura, observando o pai e trabalhando a terra. Contudo, Tendai ambicionou ir mais além. Frequentou o Instituto Superior Politécnico de Manica e, em 2024, foi selecionado para um curso de formação no Instituto Agrário de Chimoio (IAC), promovido no âmbito do programa DELPAZ, em coordenação com as autoridades e instituições locais, no quadro do apoio à formação e ao fortalecimento de iniciativas como a associação Sinembo.

Para Tendai, a formação foi mais do que uma revisão — foi uma descoberta. “Já conhecia muito daquilo que os formadores explicavam, mesmo assim aprendi muitas coisas novas”, afirma com convicção. Ao lado do seu colega Edson Lenate, de 28 anos, e mais cinco jovens, começou a aplicar esses conhecimentos numa machamba de quase meio hectare, cedida pelo seu pai.

O campo está coberto de alfaces e outras hortícolas. Com sementes recebidas no kit do DELPAZ, lançaram a primeira colheita, venderam e reinvestiram. “Esta será a nossa segunda colheita e esperamos ganhar o suficiente para começar a ter algum dividendo”, conta Tendai, com esperança no olhar.

Entre as técnicas que mais os entusiasmaram está a produção de bio pesticidas. Com ingredientes simples como piripiri, sabão e folhas de mamona (rícino), aprenderam a proteger as plantas de pragas de forma mais sustentável. “O sabão ajuda a fixar a mistura e prende as pragas”, explicam. Mesmo assim, quando a infestação é grande, recorrem a inseticidas — mas com cautela e monitorização diária.

Outra inovação foi o uso da cobertura morta, uma técnica que ajuda a conservar a humidade do solo — algo que nunca tinham experimentado antes.

O kit colectivo também incluiu ferramentas essenciais: enxadas, catanas, regadores e uma motobomba. Apesar da escassez de combustível, encontraram uma solução criativa. “Usamos a motobomba com energia solar do papá”, diz Tendai, com orgulho.

A produção é vendida no mercado de Guro ou directamente na machamba, onde os clientes vão. Edson, por sua vez, destaca outro aprendizado importante: a conservação do milho. “Antes guardávamos a maçaroca inteira. No IAC aprendemos a debulhar e guardar apenas os grãos, o que melhora a conservação.”

Para estes jovens, o curso foi uma verdadeira mais-valia. Os resultados já são visíveis na terra que cultivam e no entusiasmo com que falam do futuro. E, por trás de tudo, entre as montanhas que rodeiam a machamba, permanece o olhar atento e experiente do senhor Feniasse — um guia silencioso que continua a semear conhecimento e esperança.

 

 

Água: Instrumento de Paz

Comemora-se hoje o Dia Mundial da Água, uma data crucial que nos recorda a importância desse recurso vital para a sobrevivência humana e o equilíbrio dos ecossistemas. Este ano, o tema “Água para a Paz” destaca a capacidade da água de promover a paz e a cooperação entre comunidades e países.

Em Moçambique, a palavra “água” começa com “m”. Mati, massi, mazhi, matchi, mave, madzi, maze, madi, madji – todas essas variações ressoam com a raiz “m” e estão intimamente ligadas à fertilidade, à vida e à feminilidade. A água, assim como a mulher grávida, adapta-se às circunstâncias, supera obstáculos e dá à luz vida. É uma metáfora poderosa que reflete a natureza transformadora e vital da água.

No entanto, quando a água é escassa ou poluída, quando as pessoas têm acesso desigual ou nenhum acesso, as tensões podem surgir entre comunidades e países. As mudanças climáticas estão a exacerbar esses desafios, tornando ainda mais urgente a união em torno da protecção e conservação desse recurso precioso.

Em resposta a crises como a epidemia de cólera em Moçambique, trabalhando com as instituições moçambicanas, organizações internacionais, como o Central Emergency Response Fund (CERF), têm desempenhado um papel crucial, fornecendo financiamento para garantir acesso à água potável e serviços de saneamento básico para centenas de milhares de pessoas. A água contaminada representa o principal meio de transmissão da cólera, sendo assim garantir o acesso à água potável, é uma forma eficaz de travar a epidemia. A cooperação internacional, incluindo o investimento da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) no CERF, demonstra o poder da solidariedade e da cooperação global.

Além disso, iniciativas como o workshop sobre monitoramento e qualidade da água que teve lugar de 28 a 29 de Novembro 2023, organizado pelo centro de biotecnologia da Universidade “Eduardo Mondlane” (UEM) com o apoio da AICS, destacam o compromisso contínuo com a gestão sustentável dos recursos hídricos: foram ressaltados os desafios enfrentados por Moçambique, especialmente após eventos climáticos extremos como os ciclones, e a importância da cooperação internacional e do intercâmbio de conhecimentos para enfrentar esses desafios.

Em Cabo Delgado, a AICS junto com as Nações Unidas – nomeadamente com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) – têm apoiado as instituições moçambicanas a fornecer acesso à água potável e serviços básicos essenciais para crianças e famílias deslocadas em campos de acolhimento devido aos ataques violentos que continuam a ocorrer na região. Por exemplo nas localidades de Palma Sede, Quitunda e Mute, foram construídos 15 furos, e reabilitados outros 15. Foram realizadas 57 sessões de sensibilização, centradas na promoção de práticas de higiene positivas, incluindo a importância de lavar as mãos com água, como meio de prevenção de doenças. Estas sessões de sensibilização atingiram mais de 22.000 pessoas. Essas intervenções não apenas garantem o acesso à água limpa, mas também promovem a educação em higiene e saúde nas pessoas deslocadas pelo conflito em Cabo Delgado, demonstrando como a água está intrinsecamente ligada ao bem-estar humano, e ao desenvolvimento sustentável.

A AICS está activamente envolvida na construção de sistemas hídricos e na perfuração de poços nas áreas mais afectadas pela guerra civil através do DELPAZ. O DELPAZ, o programa do governo moçambicano e financiado pela União Europeia, com o suporte do Fundo Das Nações Unidas para o Desenvolvimento de Capital (UNCDF), é implementado nas Províncias de Manica e Tete pela AICS, enquanto a Agência Austríaca para o Desenvolvimento (ADA) actua na Província de Sofala. Esses esforços não apenas melhoram o acesso à água potável, mas também desempenham um papel crucial na restauração da confiança e da estabilidade nas comunidades devastadas pelo conflito. O Programa DELPAZ é um exemplo tangível de como a cooperação internacional pode transformar positivamente a vida das pessoas, promovendo a paz e a reconstrução pós-conflito através do acesso a recursos fundamentais como a água.

À medida que nos aproximamos do 10º Fórum Mundial da Água em Bali, Indonésia (18 a 25 de maio), é fundamental mantermos o intercâmbio de melhores práticas e colaboração global para abordar os desafios relacionados à água. A presença da Sede Regional da AICS em Maputo no fórum ressalta o compromisso contínuo da comunidade internacional em promover a gestão sustentável da água e alcançar objectivos de desenvolvimento comuns.

João e a Ana: a luz de Nhamassonge

No coração de Nhamassonge, onde a estrada principal segue firme em direcção à histórica Fortaleza de Massangano, alberga um sonho de dois jovens electricistas. O João e a Ana. Há uma banca, no final das outras no mercado, ainda sem todo o material, mas já cheia de propósito. É ali que João Augusto Toeza, de 24 anos, começa a dar forma ao seu futuro.

João apresenta ideias claras — claras como a luz — o que talvez explique a sua escolha pelo sector da electricidade. Após a frequência do curso de electricidade instaladora no IFPELAC, na cidade de Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em coordenação com as autoridades distritais para o reforço da formação profissional e do desenvolvimento local, regressou com uma nova perspectiva. Regressou não apenas com conhecimentos técnicos acrescidos, mas também com uma visão mais ampla sobre o seu futuro e o contributo que pode oferecer à sua comunidade.

Não voltou sozinho. Ao seu lado está Ana Assane Saísse, também com 24 anos, colega de formação e agora sócia no negócio. Juntos, sonham alto, mesmo que os recursos ainda sejam poucos. A banca já está construída, alinhada com as outras no mercado. Falta apenas a placa que anunciará ao mundo: “Luz de Nhamassonge – instalações e material eléctrico”.

Mas nem tudo é simples. Em Nhamassonge, não há material eléctrico disponível. Cada fio, cada interruptor, cada lâmpada precisa de vir do Guro. “É um problema”, diz João, com a serenidade de quem já aprendeu a não desistir perante dificuldades. O dinheiro também escasseia, e cada metical conta. Ainda assim, vão avançando, passo a passo.

Enquanto o negócio não ganha forma completa, João e Ana continuam a trabalhar. Fazem instalações nas redondezas — serviços simples, mas essenciais. Por 500 meticais, levam luz às casas, enquanto o material fica por conta dos clientes. É pouco, mas é um começo.

A comunidade já reconhece o valor do jovem electricista. A chefe do posto administrativo, Marta João Dafrene, não esconde a satisfação: antes, qualquer avaria significava espera por alguém vindo do Guro. Agora, João resolve. E resolve bem.

O curso, apesar de breve, trouxe mais do que conhecimento técnico. Para muitos jovens de Nhamassonge, foi a primeira vez fora da sua terra. A primeira viagem de machimbombo até Chimoio. Uma experiência que abriu horizontes e mostrou que o mundo é maior — e cheio de possibilidades.

E ali, entre sonhos e desafios, está também a pequena Eduarda, dormindo tranquilamente às costas da mãe, protegida pela capulana. Talvez sem saber, já faz parte desta história de coragem e construção.

João sorri quando fala do futuro. “Quando tivermos tudo pronto, com material e a placa no lugar, havemos de enviar uma fotografia.” Não é apenas uma promessa — é uma certeza.

 

Reflexões e aspirações: as vozes dos beneficiários do DELPAZ nas províncias de Tete, Sofala e Manica

Enquanto o cenário político em Maputo discute fervorosamente a possibilidade de um Plano Nacional de Reinserção, estimulando um diálogo aprofundado entre as autoridades e a sociedade civil, um caminho para uma mudança tangível já está a ser percorrido nas províncias de Manica, Tete e Sofala. Estes passos, dados com determinação, já produziram resultados que merecem ser apoiados e podem constituir um ponto de partida sólido. No entanto, a solução não reside apenas em políticas e planos de ação, mas sobretudo na experiência directa e nas vozes autênticas dos protagonistas desta transformação.

Nos dias 21 e 22 de março, realizou-se em Maputo a Conferência Internacional sobre Reintegração Pós-Conflito, promovida pelo Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), sob o alto patrocínio do Ministério da Justiça, do Ministério dos Combatentes e do Secretariado para a Paz (PPS). Entre os participantes, oriundos das províncias de Tete, Sofala e Manica, destacaram-se as vozes vibrantes de Florinda, Rita, Mário, Graça, Anita, Isabel, Carménia e Carlota.

Para muitos deles, era a primeira vez que se deslocavam a Maputo e traziam consigo uma mensagem cheia de esperança e urgência: “Queremos paz”, declararam enfaticamente. “Queremos trabalhar a terra, somos camponeses. Queremos cultivar a nossa própria comida, mandar os nossos filhos para a escola. Queremos viver em paz e, para isso, precisamos da vossa ajuda”. As suas palavras ressoam com uma urgência palpável, uma vez que reflectem necessidades essenciais: acesso à água, infra-estruturas, estradas, mercados, hospitais e escolas.

As experiências relatadas durante a conferência foram comoventes e esclarecedoras. Anita, com os olhos ainda incrédulos, comentou a visão da abundância de água nos hotéis de Maputo, contrastando com a realidade da sua comunidade, onde a água é um bem precioso que só pode ser alcançado após longas viagens. Mário, impressionado com a grandiosidade e vibração da capital, agradeceu ao DELPAZ por ter levado o furo de água à sua comunidade e novas práticas agrícolas, juntamente com sementes e ferramentas, expressando a importância de alargar este tipo de projectos a todas as comunidades carenciadas.

Florinda partilhou um sentimento de gratidão e reconhecimento: “Nós não éramos nada, mas agora estamos aqui a falar e vocês estão a ouvir-nos. O DELPAZ tornou-nos visíveis”. Estes testemunhos são um reflexo tangível do trabalho realizado pela DELPAZ, também evidenciado pela distribuição da Declaração de Inhanzónia, um símbolo de solidariedade e inclusão promovido através da organização do acampamento solidário em novembro do ano passado no distrito de Báruè.

O papel das mulheres como actores e líderes locais foi particularmente enfatizado, tendo Carlota Inhamussua, colaboradora ativa do Programa DELPAZ na Província de Sofala, partilhado experiências significativas como o projecto da poupança e da caixa dos sonhos. Estas actividades visam não só disponibilizar recursos tangíveis, mas também estimular os sonhos e objectivos das comunidades envolvidas, reforçando a confiança e o sentimento de pertença das pessoas às suas comunidades.

O caminho para a paz e a prosperidade exige um compromisso colectivo e sustentado. Quando estas comunidades começam a dar os primeiros passos em direção à mudança, é crucial que não sejam deixadas sozinhas. Precisam de tempo, apoio e recursos para crescerem e continuarem a cultivar a paz nos seus territórios. Só através de um compromisso partilhado e de uma solidariedade duradoura é que se pode garantir um futuro de esperança e prosperidade para todas as comunidades moçambicanas.

Todos eles têm clamado para não serem deixados sozinhos, agora que estão a começar a ‘gatinhar’ e precisam de mais tempo e apoio para poderem ‘crescer’ e continuar a cultivar a paz nas suas comunidades.

Para isso contribui também o DELPAZ, em parceria com o IMD, implementado pelo AICS em Manica e Tete, e pela ADA em Sofala, com o apoio do UNCFD. Para além de água, infra-estruturas, vias de acesso, sementes e novas práticas agrícolas, estimula os sonhos das comunidades mais afectadas pela violência armada, onde os beneficiários do DDR voltaram a viver, juntamente com as suas famílias.

Como repetidamente expresso pelo Embaixador da UE em Moçambique, Antonino Maggiore, “Como parceiros de Moçambique, estamos plenamente conscientes dos desafios que enfrentamos em matéria de reintegração e reconciliação; […] A paz e a reconciliação só podem ser alcançadas através de uma democracia próspera e da prosperidade em benefício de todos os cidadãos moçambicanos.”

 

 

Soldar o futuro

Na vila de Catandica, no distrito de Báruè, a vida não seria nunca fácil para Izaquel Mário. Com apenas 18 anos e tendo estudado até à oitava classe, o futuro parecia incerto e com poucas oportunidades. Numa terra onde o emprego é escasso, muitos jovens acabam por perder a esperança cedo demais.

A vida de Izaquel começou a mudar quando foi selecionado para participar num curso de formação promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Filho de um antigo combatente da Renamo, viu nessa oportunidade uma porta aberta para um novo caminho. Partiu para Chimoio com outros jovens e optou pelo curso de serralharia no IFPELAC.

Foram duas semanas intensas, cheias de aprendizagem. Apesar de curtas, deram-lhe as bases de uma profissão e, sobretudo, a possibilidade de acreditar num futuro diferente. Izaquel é tímido e não fala bem português, mas quando se expressa na sua língua local, fala com confiança — e é aí que se percebe a sua determinação.

Ao seu lado está sempre o pai, Mário Amadeu, um homem de ideias claras e grande sentido de responsabilidade. Com doze filhos, sabe bem o valor de uma oportunidade. “Temos de ajudar os nossos jovens a encontrar um caminho”, diz. “Sem trabalho, o que podem fazer? Se não lhes damos oportunidades, correm o risco de seguir por caminhos errados.” Mário Amadeu é um dos DDR do Acordo de Maputo de 2019. Já tinha sido desmobilizado em 1994, depois da assinatura do Acordo geral de Paz em 1992, tendo ingressado na luta em 1982, na província de Sofala. Hoje só quer a paz!

Depois da formação e de receber o kit de trabalho, o pai percebeu que não seria fácil para o Izaquel começar sozinho. Duas semanas não eram suficientes para dominar o ofício. Foi então que decidiu procurar ajuda de um mestre serralheiro para iniciar a actividade.

Assim recrutou Alberto Linosse Macolone, que aprendeu a profissão no Zimbabwe, mas nunca tinha tido oportunidade de trabalhar ao regressar. Quando recebeu a proposta, aceitou de imediato.

Hoje, Izaquel e Alberto, sob a alçada do pai Mário, trabalham numa pequena oficina situada à entrada de Catandica, ao longo da N6. O espaço foi cedido gratuitamente por um comerciante local, o que representa uma grande ajuda. Com esforço, começaram a produzir cadeiras de ferro, carrinhos de mão e grades para janelas.

Os rendimentos: uma cadeira é vendida por 250 meticais, um carrinho de mão por 2.500, e as grades rendem cerca de 500 meticais pela mão de obra. Não é muito, mas é suficiente para garantir o essencial.

Mais importante ainda, é o começo de uma nova história. Entre o som do ferro a ser moldado e o trabalho diário, Izaquel não está apenas a aprender um ofício — está a construir o seu futuro. E o pai Mário pode dedicar-se à sua machamba sempre com o olho para a oficina à beira da estrada.

 

Dona Crisse, um telemóvel e um cabrito

Crisse Agostinho Guezane é uma mulher de 28 anos da comunidade de Missoche, no distrito de Moatize.

Ela carrega consigo não apenas o peso da maternidade de quatro filhos, mas também o desejo ardente de transformar sua realidade. A sua é uma história exemplar, um testemunho de resiliência e determinação.

Antes da intervenção do Programa DELPAZ na sua comunidade, dona Crisse limitava-se a cultivar apenas milho. O conhecimento sobre a produção de hortícolas era escasso, mas a sua vontade de aprender e progredir era inabalável.

Graças à iniciativa da Fundação SEPPA, um dos parceiros do Programa DELPAZ, dona Crisse recebeu as ferramentas e insumos necessários para expandir suas actividades agrícolas. Sementes de repolho, tomate e feijão foram fornecidas, abrindo portas para um novo capítulo na sua vida. Com a orientação e apoio do pessoal da fundação, Crisse aprendeu os segredos da produção dessas culturas.

Numa área modesta de 70×70 metros quadrados, dona Crisse começou a sua jornada como agricultora de hortícolas. Através da venda da sua produção, ela alcançou pequenas conquistas que reflectiram grandes mudanças na sua vida, e naquela dos filhos. Com o dinheiro adquirido, comprou um telefone celular e uma cabra, símbolos tangíveis do seu progresso e determinação.

Determinada a ir além, dona Crisse tem planos ambiciosos para o futuro. Ela agora quer expandir a sua área de produção para 100×100 metros quadrados, para cultivar uma variedade ainda maior de culturas, incluindo repolho, tomate, couve, cebola, milho e feijão. Além disso, aspira a ser um modelo para outros agricultores na sua comunidade, inspirando-os a perseguir os seus próprios sonhos e objectivos. E ela é que diz: “só a paz nos permite de estar bem, só a paz nos permite de garantir a comida, só é a paz que nos faz ricos!”

 

O primeiro serralheiro de Pindanganga

Lucas Daniel tem 22 anos e nunca saiu de Pindanganga, uma pequena aldeia no distrito de Gondola. Foi ali que cresceu, entre terra vermelha, mangueiras, canas-de-açúcar, campos de milho e mapira. Estudou até à décima classe e, depois disso, passou a dedicar-se à machamba dos pais.

Durante muito tempo, o seu futuro parecia já traçado: trabalhar a terra, tal como o pai. No entanto, em 2024, surgiu uma oportunidade que viria a mudar o rumo da sua vida. Lucas foi selecionado, juntamente com outros vinte jovens do distrito, para frequentar um curso de formação no IFPELAC, em Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local.

Foram apenas duas semanas, mas intensas — tempo suficiente para lhe abrir novos horizontes e despertar novas perspectivas sobre o seu futuro.

Na sua aldeia já não havia nenhum serralheiro. Qualquer problema com peças metálicas obrigava as pessoas a percorrer dezenas de quilómetros. Lucas viu nessa ausência uma oportunidade. Escolheu, sem hesitar, o curso de serralharia.

Após a formação, regressou a Pindanganga com uma ideia clara: começar imediatamente. Em agosto 2025, com o kit que recebeu e muita determinação, abriu uma pequena oficina improvisada à entrada da loja de uma senhora que vende um pouco de tudo, no final da estrada principal da aldeia. Para já, não paga renda. Comprou um pequeno gerador de 220 watts, pago em prestações, e deu início à sua actividade.

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, das sete da manhã até ao pôr-do-sol, Lucas está ali. Solda, repara, conserta. Faz aquilo que antes ninguém podia fazer na aldeia.

No dia em que o encontrámos estava a trabalhar numa mota. Uma moeda de 10 meticais tinha provocado um furo numa peça metálica. Lucas conseguiu pequenos pedaços de chapa, adaptou-os com cuidado e, com a sua máquina de soldar, deu nova vida à peça danificada. O cliente pagou 230 meticais — um serviço que, sem ele, implicaria uma longa deslocação. Lucas consegue ter um lucro de 2.000 meticais por semana, ainda não tem conta bancária e costuma depositar no E-mola.

Ao fim-de-semana, Luca dedica-se à igreja, à sua formação e a ajudar o pai nos campos. Mas a sua mente continua cheia de planos.

O seu sonho é claro: adquirir um gerador mais potente e uma máquina de soldar mais resistente — a que tem actualmente é fraca, aquece facilmente e obriga-o a interromper o trabalho com frequência. Mais do que isso, quer construir uma oficina verdadeira, um espaço próprio onde possa trabalhar e, quem sabe, formar outros jovens.

Já escolheu até o nome: “Oficina Majdimba”, em homenagem ao pai.

O projecto é ambicioso, mas concreto: entre terreno, materiais de construção e um novo gerador, calcula um custo total de cerca de 50.000 meticais.

O pai, Majdimba — cujo verdadeiro nome é Daniel Maparadji — acompanha tudo isto com orgulho. Antigo combatente da Renamo, natural do distrito de Buzi, na província de Sofala, viveu os anos difíceis da guerra civil. Desmobilizado em 1992 e novamente em 2021, após o Acordo de Maputo de 2019, vê hoje no percurso do filho um sinal de esperança e renovação. Onde ele conheceu a guerra, Lucas constrói o futuro — peça a peça.

 

Domingas, Brígida e Cláudia, três mulheres que fazem a diferença

Domingas Joaquim Sabão, Brígida João Masitanisse e Cláudia Manuel foram as três protagonistas do Seminário de Promoção da Liderança Feminina na Prevenção de Conflitos em Gondola, no dia 12 de abril.

Elas são beneficiárias do programa DELPAZ na Província de Manica, e vieram respectivamente dos Distritos de Gôndola, Báruè e Guro, para participar no Seminário, juntas com Directoras de Serviços Provinciais e Distritais, Secretarias Permanentes, Administradoras, funcionárias publicas, empreendedoras, académicas.

O Seminário, organizado pelo Serviço Provincial da Economia e Finança da Província de Manica em parceria com UNCDF, teve lugar no dia 12 de Abril em Gondola, com o objectivo de refletir sobre a importância da liderança feminina na prevenção e resolução de conflitos, e na construção da paz, a partir das experiencias pessoais das participantes.

As protagonistas do DELPAZ também trouxeram seu testemunho, com intervenções tocantes e articuladas que, a partir da experiência do Acampamento solidário de Inhazonia, mostraram como os processos de empoderamento promovidos pelo programa podem contribuir para diminuir as discriminações baseadas no género.

“Havia violação dos direitos dos menores, em particular as raparigas quando terminavam a sétima classe não tinham como ir à escola secundária porque os pais não permitiam que estas crianças continuassem a estudar – também porque a escola ficava longe, e era considerado perigoso. E assim estas meninas depois entravam em casamentos prematuros. Mas a aprendizagem do acampamento permitiu trazer uma mudança de mentalidade na nossa comunidade, e já as meninas deixaram de casar, passaram a ir à escola secundária – contou a Brígida. Ela frisou ainda o seu papel como activistas na comunidade e que “conversamos com os pais dizendo que as meninas têm direito de continuar com a escola secundária e também têm direito, se quiserem, de ir à universidade”.

A Cláudia, por seu lado, abordou o assunto da dependência económica, que pode ser mitigada por iniciativas que promovem o empoderamento económico das mulheres: “Nós mulheres, na minha comunidade, antes ficávamos em casa a lavar e cozinhar; o dinheiro em casa era escondido: não tínhamos acesso, tínhamos de pedir a toda a hora. Os homens são muito expertos, escondem dinheiro. Mas agora eu também consigo ter meu rendimento, compro o que acho devo comprar, dou o meu apoio económico, e consigo mostrar ao meu marido que eu também, como mulher, consigo contribuir para a renda familiar”.

Elas despertaram muita curiosidade e interesse no meio das participantes que quiseram saber como é que elas conseguiram produzir esta mudança de comportamento e de pensamento nos homens. A resposta da Domingas foi bem clara: “Não foi fácil. Quando falei com meu marido que eu precisava de documentação, ele respondeu ‘por acaso você é homem que vai ir à tropa? Este dinheiro é para fazer o quê?’”.  Para ela, o factor decisivo foi, justamente, o programa DELPAZ: “Eu queria entrar no projecto como membro da minha associação, mas os projectos são rigorosos e é importante ter documentação para não correr o risco de ficar fora. Portanto voltei a falar com meu marido: ‘estou a perder a possibilidade de entrar no projecto porque não tenho documentos, porque sem documentos não sou ninguém’. E ele finalmente percebeu que, de facto, era importante eu ter todos os documentos”.

O seminário foi também uma ocasião para partilhar, com todas as participantes, uma cópia da Declaração do Acampamento de Inhazónia, a fim de continuar a espalhar as vozes das mulheres e dos homens protagonistas do DELPAZ, e para reflectir sobre una dinâmica prometedora que está sendo observada nas comunidades onde se implementa o programa – ou seja, que os homens estão expressando de forma explícita o seu interesse em ser formados sobre assuntos de igualdade de género e empoderamento. Assim, o próximo passo vai ser uma primeira formação sobre este tema a ser dada nas Rádios comunitárias com as quais o DELPAZ colabora: assim, fiquem atentos as próximas actualizações!