Em Sanga, um bairro outrora cheio de vida no distrito de Guro, há poucas casas. Com o passar dos anos, grande parte dos seus habitantes mudou-se para uma zona mais próxima da vila, em busca de melhores condições — energia elétrica, água e outras facilidades. Esse novo espaço passou a chamar-se oficialmente Sanga 2, embora os habitantes tenham dado o nome de Medzachumbo. Mas nem todos partiram.
Entre aqueles que ficaram está o senhor Feniasse Pita, presidente da Associação Sinembo — “Não fui eu” — uma organização dedicada ao apoio de órfãos e idosos. Com a sua família, continuou a cultivar a terra que sempre sustentou gerações. A sua machamba, vasta e fértil, é um verdadeiro mosaico de vida: hortícolas frescas, milho e árvores de fruto que oferecem goiabas, limões, laranjas e tangerinas. Pelo mato adentro, ao pé da montanha, tem ainda colmeias melhoradas, que produzem um mel de qualidade invejável. 
Foi neste ambiente que cresceu Tendai Pita, seu filho, hoje com 31 anos. Desde cedo, aprendeu os fundamentos da agricultura, observando o pai e trabalhando a terra. Contudo, Tendai ambicionou ir mais além. Frequentou o Instituto Superior Politécnico de Manica e, em 2024, foi selecionado para um curso de formação no Instituto Agrário de Chimoio (IAC), promovido no âmbito do programa DELPAZ, em coordenação com as autoridades e instituições locais, no quadro do apoio à formação e ao fortalecimento de iniciativas como a associação Sinembo.
Para Tendai, a formação foi mais do que uma revisão — foi uma descoberta. “Já conhecia muito daquilo que os formadores explicavam, mesmo assim aprendi muitas coisas novas”, afirma com convicção. Ao lado do seu colega Edson Lenate, de 28 anos, e mais cinco jovens, começou a aplicar esses conhecimentos numa machamba de quase meio hectare, cedida pelo seu pai.
O campo está coberto de alfaces e outras hortícolas. Com sementes recebidas no kit do DELPAZ, lançaram a primeira colheita, venderam e reinvestiram. “Esta será a nossa segunda colheita e esperamos ganhar o suficiente para começar a ter algum dividendo”, conta Tendai, com esperança no olhar.
Entre as técnicas que mais os entusiasmaram está a produção de bio pesticidas. Com ingredientes simples como piripiri, sabão e folhas de mamona (rícino), aprenderam a proteger as plantas de pragas de forma mais sustentável. “O sabão ajuda a fixar a mistura e prende as pragas”, explicam. Mesmo assim, quando a infestação é grande, recorrem a inseticidas — mas com cautela e monitorização diária. 
Outra inovação foi o uso da cobertura morta, uma técnica que ajuda a conservar a humidade do solo — algo que nunca tinham experimentado antes.
O kit colectivo também incluiu ferramentas essenciais: enxadas, catanas, regadores e uma motobomba. Apesar da escassez de combustível, encontraram uma solução criativa. “Usamos a motobomba com energia solar do papá”, diz Tendai, com orgulho.
A produção é vendida no mercado de Guro ou directamente na machamba, onde os clientes vão. Edson, por sua vez, destaca outro aprendizado importante: a conservação do milho. “Antes guardávamos a maçaroca inteira. No IAC aprendemos a debulhar e guardar apenas os grãos, o que melhora a conservação.”
Para estes jovens, o curso foi uma verdadeira mais-valia. Os resultados já são visíveis na terra que cultivam e no entusiasmo com que falam do futuro. E, por trás de tudo, entre as montanhas que rodeiam a machamba, permanece o olhar atento e experiente do senhor Feniasse — um guia silencioso que continua a semear conhecimento e esperança.

