Bartolomeu, o ex-guerrilheiro que vive da agricultura no “deserto”

Bartolomeu Tenesse, 58 anos, lutou por 13 anos na guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), numa frente que tinha a missão de sustentar a guerra civil, com armamento que devia assaltar em quartéis. Foi desmobilizado duas vezes, a última em Junho de 2021 e está pela segunda vez na chamada vida civil.

O ex-guerrilheiro está a lutar agora para sustentar a sua comunidade, com a agricultura que pratica no povoado de Casado, em Tambara, um distrito de clima seco de estepe, com inverno seco e baixa precipitação anual.

O distrito de Tambara, na província de Manica, no centro de Moçambique, está a ser atingido por uma fome severa, provocada por uma seca induzida pelo fenómeno El Niño, que tem devastado colheitas. Tambara separa-se, através do rio Zambeze, com o distrito de Mgabu, no Malawi, que foi declarado estado de calamidade devido ao fenômeno.

“A fome este ano é assustadora, há famílias a se alimentar de farelo de milho, frutas e tubérculos silvestres. Outros passam dias a fio sem comer. Então se eu intensificar essa agricultura, com boa disponibilidade de água, posso enfrentar qualquer tipo de fome”, afirma Bartolomeu Tenesse, com a mão no queixo e o braço sustentado no cabo da enxada.

Bartolomeu, foi recrutado para a guerrilha aos 15 anos, em 1985, em Angónia (Tete), quando fazia uma viagem para Blantyre, em busca de emprego no Malawi, durante a guerra civil que durou 16 anos.

“O nosso carro foi interpelado, foram separados os jovens e levados para um lugar, onde pernoitamos. Ao amanhecer, ficamos surpresos ao ver que estávamos sendo controlados por homens com armas em punho. Avisaram-nos que devíamos cumprir a tarefa de trazer democracia no país”, quando foi levado para treino militar na base de Chiriza, em Angónia.

Ficou naquela base até 1987, fazendo operações na província de Tete, quando foi solicitado na base central Merece-Chamboco, na serra da Gorongosa, onde conheceu e dialogou com o líder histórico, Afonso Dhlakama.

“Saudamos o presidente (Afonso) Dhlakama, como soldados de Tete. Daí fomos divididos em grupos pequenos, e passei para Inhaminga, em Sofala. Depois engajamos em Dondo, Nhamatanda, Shemba até regressar a uma das bases na província de Tete”.

Acrescentou: “a nossa tarefa era combater e recolher o material bélico para as nossas bases, numa dessas missões de entregas de armas, fui levado novamente até ao local onde estava o presidente Afonso Dhlakama”. Foi depois reconhecido por essas missões e poucos anos depois foi alcançado o Acordo Geral de Paz (AGP), de Roma, em 1992.

Mesmo “em paz, ficávamos a sofrer, sem liberdade e nem democracia”, o que o levou a regressar às matas em 2017, a partir da base de Nhandete (Tambara), de onde choraram “amargamente” a morte de Afonso Dhlakama, em Maio de 2018, até ser desmobilizado pela segunda vez em Junho de 2021, em Barué, no âmbito do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) – que resulta do acordo de paz de Maputo assinado em 2019.

Como a maioria dos ex-guerrilheiros da Renamo, Bartolomeu foi desmobilizado pela primeira vez em 1994, pela missão de paz das Nações Unidas em Moçambique (Onumoz).
O ex-guerrilheiro lembra que na segunda desmobilização, voltou para a aldeia de acolhimento em Tambara, com uma catana, enxada, machado, uma variedade de sementes agrícolas e uma promessa de projetos de desenvolvimento e pensão de sobrevivência.

“Disseram que viriam projetos e recebemos o programa DELPAZ. Na verdade, montou um sistema de irrigação por gravidade que estamos a usar desde o ano passado. Beneficiamos também de sementes e assistência de extensionistas do programa que esta a ajudar a aumentar muito a produção num sítio difícil de produzir, por ser uma zona seca”, explica Bartolomeu Tenesse

O ex-guerrilheiro é membro de uma das 10 associações de camponeses que recebe apoio do programa DELPAZ, que dá especial atenção à criação de oportunidades para jovens, mulheres, bem como ex-combatentes e suas famílias.

Bartolomeu e parte de sua família trabalham no Ponto Verde de Tambara, um campo de transferência de tecnologias, que assiste com tecnologias e práticas agrícolas inteligentes para o aumento da produção e produtividade das 10 associações agrícolas e da população de Tambara.

 

Reflexão sobre os Pontos Verdes em Manica: desafios, impacto e sustentabilidade

DELPAZ organizou um seminário de reflexão, no dia 24 de fevereiro, na Província de Manica sobre os Pontos Verdes (PV), espaços dedicados à promoção de tecnologias agrícolas sustentáveis, capacitação de agricultores e fortalecimento da segurança alimentar e da capacidade produtiva das associações, com um enfoque no mercado.

O encontro reuniu os presidentes das associações que gerem os PV, pontos focais, diretores do SDAE e a equipa técnica do projeto, num ambiente de partilha de ideias, experiências e visões para o futuro. O objetivo principal foi avaliar o impacto destes centros, identificar desafios e explorar oportunidades para garantir a sua sustentabilidade e expansão.

Os Pontos Verdes como motores de desenvolvimento rural

Os testemunhos dos participantes demonstraram o papel crucial dos PV no apoio aos agricultores locais. Quentino Suite, presidente do PV de Macossa, destacou os progressos alcançados: “O nosso PV já se tornou uma escola para os outros produtores. E se as coisas continuarem como estão agora, em breve teremos capacidade para adquirir um meio de transporte para escoar os produtos. Já temos compradores que vêm de Chemba, Marínguè e Gorongosa para os adquirir.”

Por sua vez, Isac Cerveja, presidente do PV de Báruè, sublinhou os benefícios da infraestrutura e dos investimentos feitos: “Com a capacidade de rega que temos agora, graças ao DELPAZ, podemos produzir até dois hectares de hortícolas e expandir ainda mais a nossa base de venda.”

O caminho para a sustentabilidade dos PV

O seminário marcou também o início do processo de desenho da estratégia de sustentabilidade dos PV, um passo essencial para garantir a continuidade e o crescimento destas iniciativas. Entre os aspetos discutidos, destacam-se:

  • A busca por parcerias justas, que possam apoiar e fortalecer as associações locais;
  • O apoio à formalização das associações, permitindo-lhes uma maior autonomia e acesso a novas oportunidades de financiamento e mercado;
  • O reforço das capacidades técnicas e organizacionais, para consolidar os PV como referências na agricultura sustentável da região.

Através destas iniciativas, o Programa DELPAZ reafirma o seu compromisso com o desenvolvimento rural sustentável, promovendo a resiliência dos agricultores e impulsionando a economia local. O seminário foi um passo importante para garantir que os Pontos Verdes continuem a crescer e a gerar impacto positivo nas comunidades onde operam.

João e a Ana: a luz de Nhamassonge

No coração de Nhamassonge, onde a estrada principal segue firme em direcção à histórica Fortaleza de Massangano, alberga um sonho de dois jovens electricistas. O João e a Ana. Há uma banca, no final das outras no mercado, ainda sem todo o material, mas já cheia de propósito. É ali que João Augusto Toeza, de 24 anos, começa a dar forma ao seu futuro.

João apresenta ideias claras — claras como a luz — o que talvez explique a sua escolha pelo sector da electricidade. Após a frequência do curso de electricidade instaladora no IFPELAC, na cidade de Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em coordenação com as autoridades distritais para o reforço da formação profissional e do desenvolvimento local, regressou com uma nova perspectiva. Regressou não apenas com conhecimentos técnicos acrescidos, mas também com uma visão mais ampla sobre o seu futuro e o contributo que pode oferecer à sua comunidade.

Não voltou sozinho. Ao seu lado está Ana Assane Saísse, também com 24 anos, colega de formação e agora sócia no negócio. Juntos, sonham alto, mesmo que os recursos ainda sejam poucos. A banca já está construída, alinhada com as outras no mercado. Falta apenas a placa que anunciará ao mundo: “Luz de Nhamassonge – instalações e material eléctrico”.

Mas nem tudo é simples. Em Nhamassonge, não há material eléctrico disponível. Cada fio, cada interruptor, cada lâmpada precisa de vir do Guro. “É um problema”, diz João, com a serenidade de quem já aprendeu a não desistir perante dificuldades. O dinheiro também escasseia, e cada metical conta. Ainda assim, vão avançando, passo a passo.

Enquanto o negócio não ganha forma completa, João e Ana continuam a trabalhar. Fazem instalações nas redondezas — serviços simples, mas essenciais. Por 500 meticais, levam luz às casas, enquanto o material fica por conta dos clientes. É pouco, mas é um começo.

A comunidade já reconhece o valor do jovem electricista. A chefe do posto administrativo, Marta João Dafrene, não esconde a satisfação: antes, qualquer avaria significava espera por alguém vindo do Guro. Agora, João resolve. E resolve bem.

O curso, apesar de breve, trouxe mais do que conhecimento técnico. Para muitos jovens de Nhamassonge, foi a primeira vez fora da sua terra. A primeira viagem de machimbombo até Chimoio. Uma experiência que abriu horizontes e mostrou que o mundo é maior — e cheio de possibilidades.

E ali, entre sonhos e desafios, está também a pequena Eduarda, dormindo tranquilamente às costas da mãe, protegida pela capulana. Talvez sem saber, já faz parte desta história de coragem e construção.

João sorri quando fala do futuro. “Quando tivermos tudo pronto, com material e a placa no lugar, havemos de enviar uma fotografia.” Não é apenas uma promessa — é uma certeza.

 

Soldar o futuro

Na vila de Catandica, no distrito de Báruè, a vida não seria nunca fácil para Izaquel Mário. Com apenas 18 anos e tendo estudado até à oitava classe, o futuro parecia incerto e com poucas oportunidades. Numa terra onde o emprego é escasso, muitos jovens acabam por perder a esperança cedo demais.

A vida de Izaquel começou a mudar quando foi selecionado para participar num curso de formação promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Filho de um antigo combatente da Renamo, viu nessa oportunidade uma porta aberta para um novo caminho. Partiu para Chimoio com outros jovens e optou pelo curso de serralharia no IFPELAC.

Foram duas semanas intensas, cheias de aprendizagem. Apesar de curtas, deram-lhe as bases de uma profissão e, sobretudo, a possibilidade de acreditar num futuro diferente. Izaquel é tímido e não fala bem português, mas quando se expressa na sua língua local, fala com confiança — e é aí que se percebe a sua determinação.

Ao seu lado está sempre o pai, Mário Amadeu, um homem de ideias claras e grande sentido de responsabilidade. Com doze filhos, sabe bem o valor de uma oportunidade. “Temos de ajudar os nossos jovens a encontrar um caminho”, diz. “Sem trabalho, o que podem fazer? Se não lhes damos oportunidades, correm o risco de seguir por caminhos errados.” Mário Amadeu é um dos DDR do Acordo de Maputo de 2019. Já tinha sido desmobilizado em 1994, depois da assinatura do Acordo geral de Paz em 1992, tendo ingressado na luta em 1982, na província de Sofala. Hoje só quer a paz!

Depois da formação e de receber o kit de trabalho, o pai percebeu que não seria fácil para o Izaquel começar sozinho. Duas semanas não eram suficientes para dominar o ofício. Foi então que decidiu procurar ajuda de um mestre serralheiro para iniciar a actividade.

Assim recrutou Alberto Linosse Macolone, que aprendeu a profissão no Zimbabwe, mas nunca tinha tido oportunidade de trabalhar ao regressar. Quando recebeu a proposta, aceitou de imediato.

Hoje, Izaquel e Alberto, sob a alçada do pai Mário, trabalham numa pequena oficina situada à entrada de Catandica, ao longo da N6. O espaço foi cedido gratuitamente por um comerciante local, o que representa uma grande ajuda. Com esforço, começaram a produzir cadeiras de ferro, carrinhos de mão e grades para janelas.

Os rendimentos: uma cadeira é vendida por 250 meticais, um carrinho de mão por 2.500, e as grades rendem cerca de 500 meticais pela mão de obra. Não é muito, mas é suficiente para garantir o essencial.

Mais importante ainda, é o começo de uma nova história. Entre o som do ferro a ser moldado e o trabalho diário, Izaquel não está apenas a aprender um ofício — está a construir o seu futuro. E o pai Mário pode dedicar-se à sua machamba sempre com o olho para a oficina à beira da estrada.

 

O primeiro serralheiro de Pindanganga

Lucas Daniel tem 22 anos e nunca saiu de Pindanganga, uma pequena aldeia no distrito de Gondola. Foi ali que cresceu, entre terra vermelha, mangueiras, canas-de-açúcar, campos de milho e mapira. Estudou até à décima classe e, depois disso, passou a dedicar-se à machamba dos pais.

Durante muito tempo, o seu futuro parecia já traçado: trabalhar a terra, tal como o pai. No entanto, em 2024, surgiu uma oportunidade que viria a mudar o rumo da sua vida. Lucas foi selecionado, juntamente com outros vinte jovens do distrito, para frequentar um curso de formação no IFPELAC, em Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local.

Foram apenas duas semanas, mas intensas — tempo suficiente para lhe abrir novos horizontes e despertar novas perspectivas sobre o seu futuro.

Na sua aldeia já não havia nenhum serralheiro. Qualquer problema com peças metálicas obrigava as pessoas a percorrer dezenas de quilómetros. Lucas viu nessa ausência uma oportunidade. Escolheu, sem hesitar, o curso de serralharia.

Após a formação, regressou a Pindanganga com uma ideia clara: começar imediatamente. Em agosto 2025, com o kit que recebeu e muita determinação, abriu uma pequena oficina improvisada à entrada da loja de uma senhora que vende um pouco de tudo, no final da estrada principal da aldeia. Para já, não paga renda. Comprou um pequeno gerador de 220 watts, pago em prestações, e deu início à sua actividade.

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, das sete da manhã até ao pôr-do-sol, Lucas está ali. Solda, repara, conserta. Faz aquilo que antes ninguém podia fazer na aldeia.

No dia em que o encontrámos estava a trabalhar numa mota. Uma moeda de 10 meticais tinha provocado um furo numa peça metálica. Lucas conseguiu pequenos pedaços de chapa, adaptou-os com cuidado e, com a sua máquina de soldar, deu nova vida à peça danificada. O cliente pagou 230 meticais — um serviço que, sem ele, implicaria uma longa deslocação. Lucas consegue ter um lucro de 2.000 meticais por semana, ainda não tem conta bancária e costuma depositar no E-mola.

Ao fim-de-semana, Luca dedica-se à igreja, à sua formação e a ajudar o pai nos campos. Mas a sua mente continua cheia de planos.

O seu sonho é claro: adquirir um gerador mais potente e uma máquina de soldar mais resistente — a que tem actualmente é fraca, aquece facilmente e obriga-o a interromper o trabalho com frequência. Mais do que isso, quer construir uma oficina verdadeira, um espaço próprio onde possa trabalhar e, quem sabe, formar outros jovens.

Já escolheu até o nome: “Oficina Majdimba”, em homenagem ao pai.

O projecto é ambicioso, mas concreto: entre terreno, materiais de construção e um novo gerador, calcula um custo total de cerca de 50.000 meticais.

O pai, Majdimba — cujo verdadeiro nome é Daniel Maparadji — acompanha tudo isto com orgulho. Antigo combatente da Renamo, natural do distrito de Buzi, na província de Sofala, viveu os anos difíceis da guerra civil. Desmobilizado em 1992 e novamente em 2021, após o Acordo de Maputo de 2019, vê hoje no percurso do filho um sinal de esperança e renovação. Onde ele conheceu a guerra, Lucas constrói o futuro — peça a peça.

 

O sorriso de Adinha

Na aldeia de Muda Serração, onde o som das máquinas já não ecoa há muitos anos e o tempo parece caminhar ao ritmo da terra, vive Adinha Pita, uma jovem de 26 anos com um sorriso que insiste em brilhar, mesmo quando a vida pesa.

Muda Serração recebeu o seu nome de uma antiga serração, a mais velha da província de Manica, hoje silenciosa. Ali, as mulheres trabalham a terra, cuidam dos filhos e da casa e os homens, na sua maioria, partem para as minas da África do Sul.

Adinha também já teve os seus sonhos construídos a dois. Mas a vida, por vezes, escolhe caminhos difíceis. Problemas pesados no casamento fizeram-na regressar à casa dos pais, levando consigo o que mais importa: a sua filha Betty, de 6 anos, e o pequeno António, ainda com apenas 4 meses.

O pai das crianças ficou para trás — e com ele, a responsabilidade que nunca chegou em forma de apoio. Mas Adinha não fala disso com amargura. Fala do futuro.

Enquanto António sorri na capulana que o beleca nas costas da mãe, ela imagina o dia em que poderá começar de novo. Espera apenas que o bebé cresça um pouco mais, que atinja os seis meses, para poder sair à procura de trabalho — ou melhor ainda, criar o seu próprio caminho.

Ecco una versione con un tono leggermente più narrativo, mantenendo comunque la coerenza istituzionale:

Adinha deu um passo decisivo quando frequentou um curso de culinária no IFPELAC, em Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Foi selecionada entre outros candidatos e, desde o início, destacou-se pela dedicação e vontade de aprender. Ao longo da formação, aperfeiçoou técnicas, ganhou confiança e começou a imaginar novas possibilidades para o seu futuro.

No final, recebeu mais do que um certificado: recebeu ferramentas para sonhar. Uma chaleira elétrica, uma batedeira, uma mesa, uma cadeira e um forno elétrico para bolos — pequenos bens que, nas mãos certas, se transformam em pontes concretas para um futuro diferente.

“Aqui não é fácil vender bolos — diz ela. — As pessoas não estão muito habituadas a festas. Isto é campo.” Os preços dos bolos variam entre 650 a 1000 meticais conforme a grandeza.

Mesmo assim, há dias especiais. O dia 1 de junho, por exemplo, quando se celebra o Dia da Criança. Nesses momentos, alguém se lembra de Adinha. E ela responde, com dedicação, transformando farinha, ovos e açúcar: bolos pintados que fazem a alegria da festa.

E Adinha sonha mais do que os bolos. Ela imagina um pequeno espaço à beira da estrada — Muda Serração fica entre Muxúnguè e Inchope — um lugar onde os viajantes possam parar e encontrar comida quente: arroz, caril, chamussas. Uma pequena banca onde possa vender comida pronta e ganhar o suficiente para os seus filhos e ela. “Aqui não há bancas assim — diz ela. — Seria uma boa oportunidade.”

E ela acredita. Acredita com uma certeza calma, daquelas que não fazem barulho, mas resistem. Não está sozinha. O senhor André Bartolomeu, ponto focal do DELPAZ no distrito de Gondola, acompanha o seu percurso com atenção.

“Ela é uma boa menina — diz ele. — Mostrou isso no curso. E tem batalhado muito.”

Ele acredita que Adinha vai conseguir o seu espaço. E ela também acredita.

Para já Adinha encontra força nas pequenas coisas: no riso da Betty, no respirar tranquilo de António, e nas mensagens trocadas com as colegas do curso, num grupo de WhatsApp onde partilham ideias, desafios e coragem.

Porque, no fundo, Adinha sabe: a sua história não é feita apenas de dificuldades.

E enquanto o mundo ao seu redor parece parado, como a velha serração que deu nome à aldeia, dentro dela tudo continua em movimento. O futuro ainda não chegou — mas já começou.

 

Reflexões e aspirações: as vozes dos beneficiários do DELPAZ nas províncias de Tete, Sofala e Manica

Enquanto o cenário político em Maputo discute fervorosamente a possibilidade de um Plano Nacional de Reinserção, estimulando um diálogo aprofundado entre as autoridades e a sociedade civil, um caminho para uma mudança tangível já está a ser percorrido nas províncias de Manica, Tete e Sofala. Estes passos, dados com determinação, já produziram resultados que merecem ser apoiados e podem constituir um ponto de partida sólido. No entanto, a solução não reside apenas em políticas e planos de ação, mas sobretudo na experiência directa e nas vozes autênticas dos protagonistas desta transformação.

Nos dias 21 e 22 de março, realizou-se em Maputo a Conferência Internacional sobre Reintegração Pós-Conflito, promovida pelo Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), sob o alto patrocínio do Ministério da Justiça, do Ministério dos Combatentes e do Secretariado para a Paz (PPS). Entre os participantes, oriundos das províncias de Tete, Sofala e Manica, destacaram-se as vozes vibrantes de Florinda, Rita, Mário, Graça, Anita, Isabel, Carménia e Carlota.

Para muitos deles, era a primeira vez que se deslocavam a Maputo e traziam consigo uma mensagem cheia de esperança e urgência: “Queremos paz”, declararam enfaticamente. “Queremos trabalhar a terra, somos camponeses. Queremos cultivar a nossa própria comida, mandar os nossos filhos para a escola. Queremos viver em paz e, para isso, precisamos da vossa ajuda”. As suas palavras ressoam com uma urgência palpável, uma vez que reflectem necessidades essenciais: acesso à água, infra-estruturas, estradas, mercados, hospitais e escolas.

As experiências relatadas durante a conferência foram comoventes e esclarecedoras. Anita, com os olhos ainda incrédulos, comentou a visão da abundância de água nos hotéis de Maputo, contrastando com a realidade da sua comunidade, onde a água é um bem precioso que só pode ser alcançado após longas viagens. Mário, impressionado com a grandiosidade e vibração da capital, agradeceu ao DELPAZ por ter levado o furo de água à sua comunidade e novas práticas agrícolas, juntamente com sementes e ferramentas, expressando a importância de alargar este tipo de projectos a todas as comunidades carenciadas.

Florinda partilhou um sentimento de gratidão e reconhecimento: “Nós não éramos nada, mas agora estamos aqui a falar e vocês estão a ouvir-nos. O DELPAZ tornou-nos visíveis”. Estes testemunhos são um reflexo tangível do trabalho realizado pela DELPAZ, também evidenciado pela distribuição da Declaração de Inhanzónia, um símbolo de solidariedade e inclusão promovido através da organização do acampamento solidário em novembro do ano passado no distrito de Báruè.

O papel das mulheres como actores e líderes locais foi particularmente enfatizado, tendo Carlota Inhamussua, colaboradora ativa do Programa DELPAZ na Província de Sofala, partilhado experiências significativas como o projecto da poupança e da caixa dos sonhos. Estas actividades visam não só disponibilizar recursos tangíveis, mas também estimular os sonhos e objectivos das comunidades envolvidas, reforçando a confiança e o sentimento de pertença das pessoas às suas comunidades.

O caminho para a paz e a prosperidade exige um compromisso colectivo e sustentado. Quando estas comunidades começam a dar os primeiros passos em direção à mudança, é crucial que não sejam deixadas sozinhas. Precisam de tempo, apoio e recursos para crescerem e continuarem a cultivar a paz nos seus territórios. Só através de um compromisso partilhado e de uma solidariedade duradoura é que se pode garantir um futuro de esperança e prosperidade para todas as comunidades moçambicanas.

Todos eles têm clamado para não serem deixados sozinhos, agora que estão a começar a ‘gatinhar’ e precisam de mais tempo e apoio para poderem ‘crescer’ e continuar a cultivar a paz nas suas comunidades.

Para isso contribui também o DELPAZ, em parceria com o IMD, implementado pelo AICS em Manica e Tete, e pela ADA em Sofala, com o apoio do UNCFD. Para além de água, infra-estruturas, vias de acesso, sementes e novas práticas agrícolas, estimula os sonhos das comunidades mais afectadas pela violência armada, onde os beneficiários do DDR voltaram a viver, juntamente com as suas famílias.

Como repetidamente expresso pelo Embaixador da UE em Moçambique, Antonino Maggiore, “Como parceiros de Moçambique, estamos plenamente conscientes dos desafios que enfrentamos em matéria de reintegração e reconciliação; […] A paz e a reconciliação só podem ser alcançadas através de uma democracia próspera e da prosperidade em benefício de todos os cidadãos moçambicanos.”

 

 

Dona Crisse, um telemóvel e um cabrito

Crisse Agostinho Guezane é uma mulher de 28 anos da comunidade de Missoche, no distrito de Moatize.

Ela carrega consigo não apenas o peso da maternidade de quatro filhos, mas também o desejo ardente de transformar sua realidade. A sua é uma história exemplar, um testemunho de resiliência e determinação.

Antes da intervenção do Programa DELPAZ na sua comunidade, dona Crisse limitava-se a cultivar apenas milho. O conhecimento sobre a produção de hortícolas era escasso, mas a sua vontade de aprender e progredir era inabalável.

Graças à iniciativa da Fundação SEPPA, um dos parceiros do Programa DELPAZ, dona Crisse recebeu as ferramentas e insumos necessários para expandir suas actividades agrícolas. Sementes de repolho, tomate e feijão foram fornecidas, abrindo portas para um novo capítulo na sua vida. Com a orientação e apoio do pessoal da fundação, Crisse aprendeu os segredos da produção dessas culturas.

Numa área modesta de 70×70 metros quadrados, dona Crisse começou a sua jornada como agricultora de hortícolas. Através da venda da sua produção, ela alcançou pequenas conquistas que reflectiram grandes mudanças na sua vida, e naquela dos filhos. Com o dinheiro adquirido, comprou um telefone celular e uma cabra, símbolos tangíveis do seu progresso e determinação.

Determinada a ir além, dona Crisse tem planos ambiciosos para o futuro. Ela agora quer expandir a sua área de produção para 100×100 metros quadrados, para cultivar uma variedade ainda maior de culturas, incluindo repolho, tomate, couve, cebola, milho e feijão. Além disso, aspira a ser um modelo para outros agricultores na sua comunidade, inspirando-os a perseguir os seus próprios sonhos e objectivos. E ela é que diz: “só a paz nos permite de estar bem, só a paz nos permite de garantir a comida, só é a paz que nos faz ricos!”

 

Domingas, Brígida e Cláudia, três mulheres que fazem a diferença

Domingas Joaquim Sabão, Brígida João Masitanisse e Cláudia Manuel foram as três protagonistas do Seminário de Promoção da Liderança Feminina na Prevenção de Conflitos em Gondola, no dia 12 de abril.

Elas são beneficiárias do programa DELPAZ na Província de Manica, e vieram respectivamente dos Distritos de Gôndola, Báruè e Guro, para participar no Seminário, juntas com Directoras de Serviços Provinciais e Distritais, Secretarias Permanentes, Administradoras, funcionárias publicas, empreendedoras, académicas.

O Seminário, organizado pelo Serviço Provincial da Economia e Finança da Província de Manica em parceria com UNCDF, teve lugar no dia 12 de Abril em Gondola, com o objectivo de refletir sobre a importância da liderança feminina na prevenção e resolução de conflitos, e na construção da paz, a partir das experiencias pessoais das participantes.

As protagonistas do DELPAZ também trouxeram seu testemunho, com intervenções tocantes e articuladas que, a partir da experiência do Acampamento solidário de Inhazonia, mostraram como os processos de empoderamento promovidos pelo programa podem contribuir para diminuir as discriminações baseadas no género.

“Havia violação dos direitos dos menores, em particular as raparigas quando terminavam a sétima classe não tinham como ir à escola secundária porque os pais não permitiam que estas crianças continuassem a estudar – também porque a escola ficava longe, e era considerado perigoso. E assim estas meninas depois entravam em casamentos prematuros. Mas a aprendizagem do acampamento permitiu trazer uma mudança de mentalidade na nossa comunidade, e já as meninas deixaram de casar, passaram a ir à escola secundária – contou a Brígida. Ela frisou ainda o seu papel como activistas na comunidade e que “conversamos com os pais dizendo que as meninas têm direito de continuar com a escola secundária e também têm direito, se quiserem, de ir à universidade”.

A Cláudia, por seu lado, abordou o assunto da dependência económica, que pode ser mitigada por iniciativas que promovem o empoderamento económico das mulheres: “Nós mulheres, na minha comunidade, antes ficávamos em casa a lavar e cozinhar; o dinheiro em casa era escondido: não tínhamos acesso, tínhamos de pedir a toda a hora. Os homens são muito expertos, escondem dinheiro. Mas agora eu também consigo ter meu rendimento, compro o que acho devo comprar, dou o meu apoio económico, e consigo mostrar ao meu marido que eu também, como mulher, consigo contribuir para a renda familiar”.

Elas despertaram muita curiosidade e interesse no meio das participantes que quiseram saber como é que elas conseguiram produzir esta mudança de comportamento e de pensamento nos homens. A resposta da Domingas foi bem clara: “Não foi fácil. Quando falei com meu marido que eu precisava de documentação, ele respondeu ‘por acaso você é homem que vai ir à tropa? Este dinheiro é para fazer o quê?’”.  Para ela, o factor decisivo foi, justamente, o programa DELPAZ: “Eu queria entrar no projecto como membro da minha associação, mas os projectos são rigorosos e é importante ter documentação para não correr o risco de ficar fora. Portanto voltei a falar com meu marido: ‘estou a perder a possibilidade de entrar no projecto porque não tenho documentos, porque sem documentos não sou ninguém’. E ele finalmente percebeu que, de facto, era importante eu ter todos os documentos”.

O seminário foi também uma ocasião para partilhar, com todas as participantes, uma cópia da Declaração do Acampamento de Inhazónia, a fim de continuar a espalhar as vozes das mulheres e dos homens protagonistas do DELPAZ, e para reflectir sobre una dinâmica prometedora que está sendo observada nas comunidades onde se implementa o programa – ou seja, que os homens estão expressando de forma explícita o seu interesse em ser formados sobre assuntos de igualdade de género e empoderamento. Assim, o próximo passo vai ser uma primeira formação sobre este tema a ser dada nas Rádios comunitárias com as quais o DELPAZ colabora: assim, fiquem atentos as próximas actualizações!

 

Lurdes, a ex-guerrilheira que alimentava uma companhia, hoje produz para educar os filhos

Lurdes António, 68 anos, não teve acesso a educação formal na infância, como a maioria das mulheres daquela época nas zonas rurais de Moçambique. Foi recrutada para a base (de Minga), da guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) em 1982, aos 26 anos. Teve treino militar em Mandie, no distrito de Guro, na província de Manica.

No auge da guerra civil, passou por cinco bases militares da guerrilha, e produzia comida nos campos agrícolas de civis e dos militares e cozinhava para a companhia, onde conheceu depois o seu marido, também ex-guerrilheiro.

“Minha tarefa era carregar bagagens dos militares e cozinhar para eles nas suas missões. Se nos dissessem vamos a um lugar, apenas carregávamos bagagens e seguíamos, e terminado o programa – quer seja de reconhecimento ou ataque – regressávamos. Daí mandavam-nos para nossas casas e seriamos chamados quando houvesse um novo programa”, conta.

A seca e a fome severa atingiram Moçambique no final dos anos 80, e um “sofrimento terrível” abalou a sua companhia, quando decidiu com o marido abandonar a guerra e seguir viagem para se instalar em Nhamadjiua, no posto administrativo de Nhampassa, no distrito de Barué, província de Manica, onde foram depois desmobilizados com o fim da guerra em 1992.

“Em 2012 voltamos a responder ‘o chamado da revolução’, convocado pelo líder histórico Afonso Dhlakama”, que já vinha a denunciar falhas graves na implementação do Acordo Geral de Paz (AGP) de Roma.

Lurdes António voltou a ser desmobilizada junto com o marido em 2021, no âmbito do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) dos ex-guerrilheiros da Renamo em Barué.

Desde então passou a se dedicar a agricultura e aprendeu novas técnicas agrícolas introduzidas com o Programa DELPAZ, que está a assegurar a reintegração económica e social de todos os ex-combatentes, suas famílias e comunidades rurais atingidas pelo conflito para alcançar uma paz duradoura em Moçambique.

“O DELPAZ veio e está a nos ensinar. Fazíamos cultivos de forma rudimentar, com sementes tradicionais e tínhamos muitas perdas, mas agora estamos a usar técnicas agrícolas melhoradas, usamos linhas para as covas na sementeira, e já temos rendimentos para educar os nossos filhos”, explica avivada com as novas conquistas.