Reflexão sobre os Pontos Verdes em Manica: desafios, impacto e sustentabilidade

DELPAZ organizou um seminário de reflexão, no dia 24 de fevereiro, na Província de Manica sobre os Pontos Verdes (PV), espaços dedicados à promoção de tecnologias agrícolas sustentáveis, capacitação de agricultores e fortalecimento da segurança alimentar e da capacidade produtiva das associações, com um enfoque no mercado.

O encontro reuniu os presidentes das associações que gerem os PV, pontos focais, diretores do SDAE e a equipa técnica do projeto, num ambiente de partilha de ideias, experiências e visões para o futuro. O objetivo principal foi avaliar o impacto destes centros, identificar desafios e explorar oportunidades para garantir a sua sustentabilidade e expansão.

Os Pontos Verdes como motores de desenvolvimento rural

Os testemunhos dos participantes demonstraram o papel crucial dos PV no apoio aos agricultores locais. Quentino Suite, presidente do PV de Macossa, destacou os progressos alcançados: “O nosso PV já se tornou uma escola para os outros produtores. E se as coisas continuarem como estão agora, em breve teremos capacidade para adquirir um meio de transporte para escoar os produtos. Já temos compradores que vêm de Chemba, Marínguè e Gorongosa para os adquirir.”

Por sua vez, Isac Cerveja, presidente do PV de Báruè, sublinhou os benefícios da infraestrutura e dos investimentos feitos: “Com a capacidade de rega que temos agora, graças ao DELPAZ, podemos produzir até dois hectares de hortícolas e expandir ainda mais a nossa base de venda.”

O caminho para a sustentabilidade dos PV

O seminário marcou também o início do processo de desenho da estratégia de sustentabilidade dos PV, um passo essencial para garantir a continuidade e o crescimento destas iniciativas. Entre os aspetos discutidos, destacam-se:

  • A busca por parcerias justas, que possam apoiar e fortalecer as associações locais;
  • O apoio à formalização das associações, permitindo-lhes uma maior autonomia e acesso a novas oportunidades de financiamento e mercado;
  • O reforço das capacidades técnicas e organizacionais, para consolidar os PV como referências na agricultura sustentável da região.

Através destas iniciativas, o Programa DELPAZ reafirma o seu compromisso com o desenvolvimento rural sustentável, promovendo a resiliência dos agricultores e impulsionando a economia local. O seminário foi um passo importante para garantir que os Pontos Verdes continuem a crescer e a gerar impacto positivo nas comunidades onde operam.

João e a Ana: a luz de Nhamassonge

No coração de Nhamassonge, onde a estrada principal segue firme em direcção à histórica Fortaleza de Massangano, alberga um sonho de dois jovens electricistas. O João e a Ana. Há uma banca, no final das outras no mercado, ainda sem todo o material, mas já cheia de propósito. É ali que João Augusto Toeza, de 24 anos, começa a dar forma ao seu futuro.

João apresenta ideias claras — claras como a luz — o que talvez explique a sua escolha pelo sector da electricidade. Após a frequência do curso de electricidade instaladora no IFPELAC, na cidade de Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em coordenação com as autoridades distritais para o reforço da formação profissional e do desenvolvimento local, regressou com uma nova perspectiva. Regressou não apenas com conhecimentos técnicos acrescidos, mas também com uma visão mais ampla sobre o seu futuro e o contributo que pode oferecer à sua comunidade.

Não voltou sozinho. Ao seu lado está Ana Assane Saísse, também com 24 anos, colega de formação e agora sócia no negócio. Juntos, sonham alto, mesmo que os recursos ainda sejam poucos. A banca já está construída, alinhada com as outras no mercado. Falta apenas a placa que anunciará ao mundo: “Luz de Nhamassonge – instalações e material eléctrico”.

Mas nem tudo é simples. Em Nhamassonge, não há material eléctrico disponível. Cada fio, cada interruptor, cada lâmpada precisa de vir do Guro. “É um problema”, diz João, com a serenidade de quem já aprendeu a não desistir perante dificuldades. O dinheiro também escasseia, e cada metical conta. Ainda assim, vão avançando, passo a passo.

Enquanto o negócio não ganha forma completa, João e Ana continuam a trabalhar. Fazem instalações nas redondezas — serviços simples, mas essenciais. Por 500 meticais, levam luz às casas, enquanto o material fica por conta dos clientes. É pouco, mas é um começo.

A comunidade já reconhece o valor do jovem electricista. A chefe do posto administrativo, Marta João Dafrene, não esconde a satisfação: antes, qualquer avaria significava espera por alguém vindo do Guro. Agora, João resolve. E resolve bem.

O curso, apesar de breve, trouxe mais do que conhecimento técnico. Para muitos jovens de Nhamassonge, foi a primeira vez fora da sua terra. A primeira viagem de machimbombo até Chimoio. Uma experiência que abriu horizontes e mostrou que o mundo é maior — e cheio de possibilidades.

E ali, entre sonhos e desafios, está também a pequena Eduarda, dormindo tranquilamente às costas da mãe, protegida pela capulana. Talvez sem saber, já faz parte desta história de coragem e construção.

João sorri quando fala do futuro. “Quando tivermos tudo pronto, com material e a placa no lugar, havemos de enviar uma fotografia.” Não é apenas uma promessa — é uma certeza.

 

Soldar o futuro

Na vila de Catandica, no distrito de Báruè, a vida não seria nunca fácil para Izaquel Mário. Com apenas 18 anos e tendo estudado até à oitava classe, o futuro parecia incerto e com poucas oportunidades. Numa terra onde o emprego é escasso, muitos jovens acabam por perder a esperança cedo demais.

A vida de Izaquel começou a mudar quando foi selecionado para participar num curso de formação promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Filho de um antigo combatente da Renamo, viu nessa oportunidade uma porta aberta para um novo caminho. Partiu para Chimoio com outros jovens e optou pelo curso de serralharia no IFPELAC.

Foram duas semanas intensas, cheias de aprendizagem. Apesar de curtas, deram-lhe as bases de uma profissão e, sobretudo, a possibilidade de acreditar num futuro diferente. Izaquel é tímido e não fala bem português, mas quando se expressa na sua língua local, fala com confiança — e é aí que se percebe a sua determinação.

Ao seu lado está sempre o pai, Mário Amadeu, um homem de ideias claras e grande sentido de responsabilidade. Com doze filhos, sabe bem o valor de uma oportunidade. “Temos de ajudar os nossos jovens a encontrar um caminho”, diz. “Sem trabalho, o que podem fazer? Se não lhes damos oportunidades, correm o risco de seguir por caminhos errados.” Mário Amadeu é um dos DDR do Acordo de Maputo de 2019. Já tinha sido desmobilizado em 1994, depois da assinatura do Acordo geral de Paz em 1992, tendo ingressado na luta em 1982, na província de Sofala. Hoje só quer a paz!

Depois da formação e de receber o kit de trabalho, o pai percebeu que não seria fácil para o Izaquel começar sozinho. Duas semanas não eram suficientes para dominar o ofício. Foi então que decidiu procurar ajuda de um mestre serralheiro para iniciar a actividade.

Assim recrutou Alberto Linosse Macolone, que aprendeu a profissão no Zimbabwe, mas nunca tinha tido oportunidade de trabalhar ao regressar. Quando recebeu a proposta, aceitou de imediato.

Hoje, Izaquel e Alberto, sob a alçada do pai Mário, trabalham numa pequena oficina situada à entrada de Catandica, ao longo da N6. O espaço foi cedido gratuitamente por um comerciante local, o que representa uma grande ajuda. Com esforço, começaram a produzir cadeiras de ferro, carrinhos de mão e grades para janelas.

Os rendimentos: uma cadeira é vendida por 250 meticais, um carrinho de mão por 2.500, e as grades rendem cerca de 500 meticais pela mão de obra. Não é muito, mas é suficiente para garantir o essencial.

Mais importante ainda, é o começo de uma nova história. Entre o som do ferro a ser moldado e o trabalho diário, Izaquel não está apenas a aprender um ofício — está a construir o seu futuro. E o pai Mário pode dedicar-se à sua machamba sempre com o olho para a oficina à beira da estrada.

 

Fazer as coisas acontecerem

“Espero que regressem a casa diferentes da forma como chegaram, que se sintam mudados: para que possam transformar as vossas vidas e as vidas das comunidades em que vivem. Façam as coisas acontecerem!” Foi com estas palavras que Hermenegildo Rodrigues Arnaldo, director do Instituto Agrário de Chimoio (IAC), encerrou no dia 13 de abril a cerimónia de entrega dos certificados de conclusão do primeiro curso de formação em ‘Produção agrícola, produção animal e técnicas de transformação’ a 72 jovens do Distrito de Barué, na Província de Manica.

O curso de formação profissional de curta duração, com a duração de duas semanas, contou com a participação de 18 mulheres jovens e 54 homens jovens, 20 dos quais provenientes de famílias beneficiárias do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR), em aulas teóricas e práticas sobre temas como a agricultura de conservação, técnicas de irrigação, controlo de pragas, criação de animais e produção de alimentos para animais, e a transformação e conservação de produtos agrícolas.

Nas próximas semanas, mais 328 jovens dos Distritos de Gondola, Guro, Macossa e Tambara vão participar em mais quatro ciclos de formação sobre os mesmos temas – uma das actividades chave do projeto DELPAZ na Província de Manica, que prossegue agora com estágios nas associações de produtores com quem o DELPAZ trabalha sob a supervisão dos técnicos agrónomos dos Serviços Distritais das Actividades Económicas formados em 2023.

Realizado pela Progettoomondo, um dos parceiros do consórcio que implementa o projecto, o curso decorreu no IAC, um dos parceiros institucionais do DELPAZ e também um dos principais institutos de formação profissional do país, que acolhe estudantes de todas as províncias e os forma em áreas como Agronomia, Medicina Veterinária, Engenharia Florestal e Conservação da Fauna Bravia, desempenhando um papel crucial na integração social e capacitação dos jovens.

O dia foi animado e alegre, entre momentos oficiais e trocas mais informais, que permitiram conversar com os alunos e alunas, que mostram – como se pode ler nas linhas seguintes – que regressam a casa com ideias e perspectivas muito diferentes, mas todos com grande motivação, e com novas amizades.

 

“Saio daqui com a ideia clara de que quero ir para a suinicultura: é a parte do curso que mais me apaixonou e tem um grande potencial” (Jordao Jairosse, de 31 anos, da comunidade de Honde)

“Já sou agricultor, mas aprendi coisas que não sabia, como a transformação de produtos agrícolas, que é algo que quero começar a fazer, nomeadamente com a produção de óleo de sésamo” (Armindo Inoque Jose, de 31 anos, de Nhassacara)

“Apercebi-me que quero continuar a formação e a estudar, gostaria que o curso tivesse durado mais tempo, mas depois apercebi-me do que me interessa” (Micheque Albertino Januario, de 21 anos, da comunidade de Chuala)

“Queremos trabalhar em grupo, organizarmo-nos. Vamos precisar de apoio, de alguns fundos para os primeiros investimentos, mas temos de começar” (Niquilone Fevereiro, 22 anos, de Chuala)

“Eu tenho o meu próprio campo. Cultivo milho, madumbe (taro), tseke (amaranto), mapira (sorgo). Onde é que eu gostaria de estar daqui a um ano? Gostava que os meus produtos fossem vendidos em Chimoio, aqui mesmo na cidade, a toda a gente”.  (Rosa Zeferino Manejo, 30 anos de Nhassacara)

 

 

Do conflito à agricultura: Evelina, um exemplo de renascimento graças ao programa DELPAZ

Em Moçambique, em particular no distrito de Gondola, na província de Manica, uma mudança positiva está a transformar vidas e comunidades graças ao programa DELPAZ. Este programa está a demonstrar o seu impacto concreto através de histórias de renascimento como a de Evelina, uma antiga guerrilheira envolvida no processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração Social (DDR).

Testemunha desta transformação, Evelina partilhou recentemente a sua experiência através de um artigo publicado no jornal SAVANA. Da sua vida no conflito, está agora a enveredar por um novo caminho centrado na agricultura e no bem-estar da sua família. O seu testemunho é não só uma inspiração, mas também uma prova tangível do valor de programas como o DELPAZ na mudança de destinos e na regeneração de comunidades, e reflecte o sucesso de uma abordagem holística que vai para além da mera assistência, investindo no potencial humano e nos recursos locais.

O Programa DELPAZ procura coordenar esforços entre o governo, os parceiros e as organizações da sociedade civil para investir em infra-estruturas, desenvolvimento agrícola e empreendedorismo. Este esforço tem como objetivo relançar a economia das comunidades afectadas por conflitos em 14 distritos das províncias de Manica, Tete e Sofala. Graças ao financiamento da União Europeia e à implementação da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) em Manica e Tete; da Agência Austríaca de Desenvolvimento (ADA) em Sofala; com o apoio do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento do Capital (UNCDF), o DELPAZ apoia a criação de oportunidades para melhorar a vida de muitas pessoas.

Um embondeiro, uma pomba e as cores de Moçambique. DELPAZ com as comunidades

O símbolo escolhido para o programa de cooperação delegada DELPAZ é belo e fala as línguas do centro de Moçambique, as línguas de todos os moçambicanos que sonham com a paz e querem viver em paz, cansados de uma guerra que devastou as suas vidas.

Realizou-se no dia 27 de Junho no Chimoio a reunião do primeiro Comité de Coordenação da Província de Manica do programa DELPAZ, o programa de cooperação delegada financiando pela União Europeia, em diálogo permanente com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique, com o objectivo geral de apoiar a consolidação da paz em 14 distritos afectados pelo conflito militar, em Manica, Sofala e Tete.

Todos os representantes dos cinco distritos da Província de Manica beneficiários do programa (Gondola, Bárue, Guro, Macossa e Tambara) estiveram presentes e participaram activamente, dissipando dúvidas e incertezas sobre o programa – no valor de 29 milhões de euros – que, nos próximos três anos, implementará acções concretas para o desenvolvimento sócio-económico nas três províncias de Moçambique mais directamente afectadas pelo conflito, que terminou com o Acordo de Paz e Reconciliação assinado em Agosto de 2019 entre o Governo de Moçambique e o partido RENAMO.

Trabalhando lado a lado com as comunidades, ouvindo as necessidades, desejos e sonhos das pessoas para que possam sentir-se parte activa da sociedade e poderem regressar à vida com serenidade. Os beneficiários da DELPAZ são governos locais, comunidades e famílias, com especial enfoque nas mulheres, jovens e ex-combatentes.

DELPAZ foi concebido com base em processos participativos, orientados pelos princípios de inclusão, pluralismo e justiça social porque consolidar a paz significa saber acolher, construir pontes, alargar horizontes, criar parcerias além fronteiras, “reconhecendo a ligação entre as nossas escolhas e o impacto nos outros”, nas palavras de Giulia Zingaro, Chefe de Equipa da AICS Maputo para o programa DELPAZ.

O DELPAZ é financiado pela União Europeia e implementado pela Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) nas províncias de Manica e Tete, enquanto a província de Sofala está sob a responsabilidade da Agência Austríaca de Cooperação. Responsável pela componente de governação inclusiva nas três províncias é o Fundo de Desenvolvimento de Capital das Nações Unidas (UNCDF), actuando como secretariado para a implementação dos comités nos vários níveis.

Uma longa história de amizade e cooperação liga a Cooperação Italiana com a Província de Manica, uma história que será ainda mais enriquecida através do programa DELPAZ, que representa para a AICS o compromisso com o desenvolvimento sustentável e a promoção de uma cultura de paz, melhorando as condições de vida das comunidades rurais através do desenvolvimento económico local.

“Hoje mais do que nunca sabemos que sem paz não há lei, sem respeito pelo ambiente não há liberdade, sem igualdade não há justiça social, sem representação não há democracia, sem desenvolvimento não há paz”, disse Paolo Enrico Sertoli. – DELPAZ representa para a AICS o compromisso para o desenvolvimento sustentável e a promoção de uma cultura de paz”.

“A consolidação da paz a partir das realidades locais passa também pela definição de governação inclusiva e planeamento e orçamentação a nível local, capaz de identificar prioridades para a população e o território – sublinhou o Director da AICS Maputo – para aumentar o investimento público e a prestação de serviços básicos nas comunidades. Aprender a escolher entre grandes intervenções estruturais e intervenções mais pequenas mas necessárias; preservação e disseminação da cultura e actividades produtivas intensivas ou em larga escala; ambiente e obras em larga escala. Fá-lo-emos em conjunto, no decurso do programa”.