Bartolomeu, o ex-guerrilheiro que vive da agricultura no “deserto”

Bartolomeu Tenesse, 58 anos, lutou por 13 anos na guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), numa frente que tinha a missão de sustentar a guerra civil, com armamento que devia assaltar em quartéis. Foi desmobilizado duas vezes, a última em Junho de 2021 e está pela segunda vez na chamada vida civil.

O ex-guerrilheiro está a lutar agora para sustentar a sua comunidade, com a agricultura que pratica no povoado de Casado, em Tambara, um distrito de clima seco de estepe, com inverno seco e baixa precipitação anual.

O distrito de Tambara, na província de Manica, no centro de Moçambique, está a ser atingido por uma fome severa, provocada por uma seca induzida pelo fenómeno El Niño, que tem devastado colheitas. Tambara separa-se, através do rio Zambeze, com o distrito de Mgabu, no Malawi, que foi declarado estado de calamidade devido ao fenômeno.

“A fome este ano é assustadora, há famílias a se alimentar de farelo de milho, frutas e tubérculos silvestres. Outros passam dias a fio sem comer. Então se eu intensificar essa agricultura, com boa disponibilidade de água, posso enfrentar qualquer tipo de fome”, afirma Bartolomeu Tenesse, com a mão no queixo e o braço sustentado no cabo da enxada.

Bartolomeu, foi recrutado para a guerrilha aos 15 anos, em 1985, em Angónia (Tete), quando fazia uma viagem para Blantyre, em busca de emprego no Malawi, durante a guerra civil que durou 16 anos.

“O nosso carro foi interpelado, foram separados os jovens e levados para um lugar, onde pernoitamos. Ao amanhecer, ficamos surpresos ao ver que estávamos sendo controlados por homens com armas em punho. Avisaram-nos que devíamos cumprir a tarefa de trazer democracia no país”, quando foi levado para treino militar na base de Chiriza, em Angónia.

Ficou naquela base até 1987, fazendo operações na província de Tete, quando foi solicitado na base central Merece-Chamboco, na serra da Gorongosa, onde conheceu e dialogou com o líder histórico, Afonso Dhlakama.

“Saudamos o presidente (Afonso) Dhlakama, como soldados de Tete. Daí fomos divididos em grupos pequenos, e passei para Inhaminga, em Sofala. Depois engajamos em Dondo, Nhamatanda, Shemba até regressar a uma das bases na província de Tete”.

Acrescentou: “a nossa tarefa era combater e recolher o material bélico para as nossas bases, numa dessas missões de entregas de armas, fui levado novamente até ao local onde estava o presidente Afonso Dhlakama”. Foi depois reconhecido por essas missões e poucos anos depois foi alcançado o Acordo Geral de Paz (AGP), de Roma, em 1992.

Mesmo “em paz, ficávamos a sofrer, sem liberdade e nem democracia”, o que o levou a regressar às matas em 2017, a partir da base de Nhandete (Tambara), de onde choraram “amargamente” a morte de Afonso Dhlakama, em Maio de 2018, até ser desmobilizado pela segunda vez em Junho de 2021, em Barué, no âmbito do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) – que resulta do acordo de paz de Maputo assinado em 2019.

Como a maioria dos ex-guerrilheiros da Renamo, Bartolomeu foi desmobilizado pela primeira vez em 1994, pela missão de paz das Nações Unidas em Moçambique (Onumoz).
O ex-guerrilheiro lembra que na segunda desmobilização, voltou para a aldeia de acolhimento em Tambara, com uma catana, enxada, machado, uma variedade de sementes agrícolas e uma promessa de projetos de desenvolvimento e pensão de sobrevivência.

“Disseram que viriam projetos e recebemos o programa DELPAZ. Na verdade, montou um sistema de irrigação por gravidade que estamos a usar desde o ano passado. Beneficiamos também de sementes e assistência de extensionistas do programa que esta a ajudar a aumentar muito a produção num sítio difícil de produzir, por ser uma zona seca”, explica Bartolomeu Tenesse

O ex-guerrilheiro é membro de uma das 10 associações de camponeses que recebe apoio do programa DELPAZ, que dá especial atenção à criação de oportunidades para jovens, mulheres, bem como ex-combatentes e suas famílias.

Bartolomeu e parte de sua família trabalham no Ponto Verde de Tambara, um campo de transferência de tecnologias, que assiste com tecnologias e práticas agrícolas inteligentes para o aumento da produção e produtividade das 10 associações agrícolas e da população de Tambara.

 

Debate caloroso marca diálogo de Paz em Manica

Nesta quinta-feira, 18 de Julho, o pavilhão polivalente do Instituto Agrário de Chimoio (IAC) esteve colorido, em vestes e opiniões, que marcaram o debate caloroso do diálogo da Paz, promovido no âmbito do programa DELPAZ, pela Agência Italiana de Cooperação ao Desenvolvimento (AICS).

Académicos, estudantes oriundos de várias províncias do país, comunidades atingidas por conflitos nas províncias de Sofala, Manica e Tete, além dos beneficiários do DDR e seus familiares arrolaram de forma vigorosa os caminhos para a consolidação da Paz, que se resumem no diálogo, tolerância e harmonia.

Os mais de 800 participantes do “Diálogo de Paz”, que teve como oradores Rafael Chicane, Rogério Sitoe e Chiquinho Conde (de forma remota) e, moderação de Eva Trindade, concordam que a transição para a paz é um longo processo e deve ser participado pelas várias gerações representativas das várias regiões que compõem Moçambique.

Ao inaugurar o debate, o historiador, Rafael Chicane, “Professor Shikhani”, defendeu que “a paz não é apenas a ausência do conflito”, mas o respeito pelas diferenças; religiosas, culturais e até das condições sociais de cada cidadão, considerando por isso que a inclusão enfatiza a variedade de perspetivas e experiências dos povos de cada região do país.

A sociedade que não respeita as diferenças nunca vai viver em Paz”, sublinha o também pesquisador independente, que escreve extensivamente sobre História Contemporânea de Moçambique, política e conflitos africanos.

Ao intervir no painel, Rogério Sitoe, actual Presidente do Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS), com uma experiência de 38 anos no Jornal Notícias, de maior circulação no país, destacou haver pouco diálogo, por isso que Moçambique está numa situação de crises, com várias classes profissionais em greve e ou a convocar greve, reiterando que a intolerância continua a minar a paz no país.

“A tolerância para paz começa na forma como convivemos”, anotou Rogério Sitoe, defendendo a inclusão dos ex-guerrilheiros na construção da paz, sem os inferiorizar ou atribuir adjetivos.

Sitoe, que participa de forma ativa na Associação “Reconstruindo Esperança”, focada na reintegração de crianças-soldado, realçou que “o mais importante é prevenir o conflito, do que esperar para dialogar para Paz”.

Chiquinho Conde saudou calorosamente os participantes e contou a sua jornada como futebolista e como treinador. Despediu-se deixando esta mensagem:”A paz requer dedicação, disciplina. A paz cultiva-se!”

Os participantes, que manifestaram o orgulho de participar do debate, que refletiu a rica diversidade do país, insistiram na necessidade de haver um compromisso de estimular o crescimento da paz em Moçambique. Ao evento participaram os parceiros de DELPAZ da província de Manica e de Sofala.

Intervindo na plateia, Telma Humberto, que também é beneficiária do DELPAZ no distrito de Macossa (Manica), frisou a importância de fortalecer a harmonia social, porque, defendeu: “a paz não é só o calar das armas, mas uma convivência harmoniosa”.

A música de Djipson Mussengi animou o evento com a sua guitarra e as suas canções.

 

Cerimónia de graduação em Dôa forma novos profissionais em Electricidade e Construção

No dia 15 de outubro, a cidade de Dôa, localizada na Província de Tete, foi palco de uma cerimónia de graduação que celebrou a conclusão de 43 jovens bolseiros em cursos de Electricidade Instaladora e Pedreiros. Esses jovens, oriundos de diversas comunidades atendidas pelo programa DELPAZ, marcaram o início de uma nova fase profissional e pessoal, graças às competências adquiridas nas formações.

A cerimónia foi um momento de grande emoção, simbolizando o esforço e a dedicação dos formandos ao longo do processo de aprendizagem. Durante o evento, foram entregues kits de auto-emprego, compostos por ferramentas essenciais para que os graduados possam iniciar suas actividades profissionais com maior independência e segurança. Os kits incluem instrumentos para as áreas de electricidade e construção, dando aos formandos a base necessária para dar os primeiros passos nas suas actividades e aproveitar as oportunidades que surgirem.

A iniciativa tem como objetivo não apenas capacitar os jovens, mas também promover a autonomia financeira e o desenvolvimento comunitário nas áreas onde o programa DELPAZ actua. Através dessas formações, o programa contribui para a inclusão de jovens no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que fomenta o crescimento económico local.

Com a conclusão dos cursos e a entrega dos kits de trabalho, esses jovens estão agora mais preparados para enfrentar os desafios do mercado e contribuir com suas habilidades para o desenvolvimento das suas comunidades.

A cerimónia em Dôa representa um passo importante para a realização dos objectivos do programa DELPAZ, que busca, por meio da educação e capacitação, oferecer novas oportunidades de emprego e desenvolvimento pessoal a jovens de diversas localidades da Província de Tete.

Marcos Augusto: a transformação pessoal e a criação de oportunidades para jovens na sua comunidade

Marcos Augusto, com uma trajetória semelhante à de muitos jovens da sua aldeia, em Mudima, no interior noroeste de Gondola, na província de Manica, concluiu a 10ª classe de escolaridade e ficou longos anos à espera de uma oportunidade de emprego no setor público.

Faltava-lhe apenas um ano de “esperança” para o sonhado emprego no Estado – já que a idade limite de admissão é de 35 anos – quando, no início do ano, se candidatou a uma vaga de formação na área de carpintaria, numa iniciativa do DELPAZ, um programa do governo de Moçambique implementado pela Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS), que dá especial atenção à criação de oportunidades para jovens, mulheres, ex-combatentes e suas famílias.

“Candidatei-me e fui apurado nas duas fases que antecederam a formação, e, juntamente com outros formandos, fomos levados para uma capacitação que iniciou a 15 de maio de 2024, tendo eu escolhido a área de carpintaria”, explicou Marcos Augusto, que está agora a cumprir um estágio de um mês.

Realçou que a formação na área de carpintaria foi um impulso necessário para protagonizar a sua própria trajetória. Desde então, começou a escrever a sua própria história – diz Marcos Augusto – ao abraçar com dedicação a oportunidade de formação na área de carpintaria, uma arte com a qual pretende criar o seu autoemprego e ajudar a sua comunidade remota.

Da minha localidade até à vila sede de Gondola são 18 quilómetros, e para alguém viajar para fazer caixão para enterros, ou para mandar fazer janelas, portas e outros artigos, tornava-se oneroso. Daí que pensei em ser um carpinteiro da minha localidade”, argumentou.

O aprendizado na área, afirmou, foi essencial para pensar na construção de uma carreira de sucesso, que estará focada em ajudar a tirar do desemprego muitos jovens da sua aldeia, que se refugiam na criminalidade e no consumo de drogas.

“Há jovens que não estão a trabalhar, então, se eu apostar em autoemprego, com o kit a ser dado na formação e um pouco de valor, vou levar alguns jovens e empregar na minha carpintaria. Assim, esses jovens já não vão roubar nem terão vícios. Vão trabalhar na minha empresa, que pretendo que cresça”, defendeu.

A formação também proporcionou-lhe uma evolução que normalmente demoraria anos a alcançar, diz ele, observando que “já tinha uma inclinação para a carpintaria”, com base na convivência que tinha com o seu tio, que é carpinteiro.

“Gostaria que o projeto me desse material manual e eletrónico, porque o material elétrico é que faz mobília de forma mais rápida que o manual, o que ajudaria muito a atingir o meu objetivo de empregar muitos jovens da minha localidade que não estão a trabalhar”, adiantou.

Com a evolução de habilidades e confiança, Marcos Augusto agradece a oportunidade dada pelo DELPAZ e almeja que o programa alcance mais jovens das províncias atingidas pelo conflito armado.

Um total de 100 jovens já se beneficiaram de formação profissional nas áreas de carpintaria, serralharia, construção civil, mecânica e corte e costura nos cinco distritos de implementação do DELPAZ na província de Manica.

Eneida, a jovem eletricista que quer transformar a sua pacata vila com iluminação inteligente

Impulsionada com o gosto pela eletricidade, Eneida Piedade Domingos, 24 anos, ganhou inspiração para transformar com iluminação inteligente sua pacata vila no interior do distrito de Guro, após beneficiar-se do curso de eletricidade instaladora, promovida no âmbito da implementação do programa DELPAZ.

Filha de um ex-guerrilheiro da Renamo, diz que o conflito armado no seu distrito atrasou o desenvolvimento, mas também a forma de iluminação, que está desalinhada com a harmonia da luz, quando comparado com cidades evoluídas do país e do mundo.

“Essa foi a oportunidade que encontrei para me formar”, ela afirma, ressaltando que isto lhe permitiu ganhar conhecimento para tornar realidade seu sonho de ver a sua vila utilizando tecnologias na iluminação de casas e ruas. Ela destaca que, embora essa técnica já esteja sendo aplicada em outros lugares do mundo, ainda é pouco utilizada no seu distrito.

“O exemplo do uso de fotocélula nas casas, permite que o interruptor acione num determinado horário e o lugar seja iluminado sem precisar da presença humana”, além do uso de lâmpadas inteligentes controladas por aplicativos para poupar o consumo de energia nas casas, explica entusiasmada.

Enfatizou que “a formação me ajudou a ter ideias para fazer mudanças no meu distrito, como passar a usar coisas que muitas pessoas estão a usar no momento”, em cidades evoluídas.

Eneida finalizou o nível médio sem ter tido oportunidade de formação profissional, sobretudo, no ramo de eletricidade, sua paixão desde a infância e olha para a oportunidade como uma janela de mudança também para sua vida social.

“Eu sou mulher e consegui fazer o curso de eletricidade e então estou a encorajar outras mulheres para também seguirem este tipo de formação e conseguir ter emprego”, para ganhar independência económica e “não só esperar homens trabalhar”.

Insiste que a mulher deve ser ajudadora no lar e ser capaz por si só de sustentar a casa e “não apenas esperar no homem, esperar dinheiro de alguém, então ter formação é importante para conseguir sustentar a sua família”, anota, agradecendo o esforço do DELPAZ de poder dar oportunidade de formação aos jovens.

“Estou muito feliz agora, por o programa DELPAZ nos dar essa oportunidade de estudar, estou mesmo muito agradecida, pois apesar de que não foram todos os jovens formados no meu distrito formado, eu alcançarei outros jovens para ensinar e juntos conduzir a transformação para o distrito”, afirma Eneida Piedade Domingos.

Um total de 100 jovens já se beneficiaram de formação profissional nas áreas de carpintaria, serralharia, construção civil, mecânica e corte e costura nos cinco distritos de implementação do DELPAZ na província de Manica.

O programa DELPAZ dá especial atenção à criação de oportunidades para jovens, mulheres, bem como ex-combatentes e suas famílias.

Em todos os 5 distritos da província de Manica, milhares de pessoas já se beneficiaram do DELPAZ, que está a implementar projetos nas áreas de agricultura, infraestruturas e empreendedorismo, para assegurar a reintegração económica e social de todos os ex-combatentes, suas famílias e comunidades rurais atingidas pelo conflito para alcançar uma paz duradoura em Moçambique.

O programa do governo moçambicano e financiado pela União Europeia, e juntamente com UNCDF é implementado pela Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) nas províncias de Manica e Tete, enquanto a Agência de Desenvolvimento Austríaca (ADA) em Sofala.

 

 

 

Reflexão sobre os Pontos Verdes em Manica: desafios, impacto e sustentabilidade

DELPAZ organizou um seminário de reflexão, no dia 24 de fevereiro, na Província de Manica sobre os Pontos Verdes (PV), espaços dedicados à promoção de tecnologias agrícolas sustentáveis, capacitação de agricultores e fortalecimento da segurança alimentar e da capacidade produtiva das associações, com um enfoque no mercado.

O encontro reuniu os presidentes das associações que gerem os PV, pontos focais, diretores do SDAE e a equipa técnica do projeto, num ambiente de partilha de ideias, experiências e visões para o futuro. O objetivo principal foi avaliar o impacto destes centros, identificar desafios e explorar oportunidades para garantir a sua sustentabilidade e expansão.

Os Pontos Verdes como motores de desenvolvimento rural

Os testemunhos dos participantes demonstraram o papel crucial dos PV no apoio aos agricultores locais. Quentino Suite, presidente do PV de Macossa, destacou os progressos alcançados: “O nosso PV já se tornou uma escola para os outros produtores. E se as coisas continuarem como estão agora, em breve teremos capacidade para adquirir um meio de transporte para escoar os produtos. Já temos compradores que vêm de Chemba, Marínguè e Gorongosa para os adquirir.”

Por sua vez, Isac Cerveja, presidente do PV de Báruè, sublinhou os benefícios da infraestrutura e dos investimentos feitos: “Com a capacidade de rega que temos agora, graças ao DELPAZ, podemos produzir até dois hectares de hortícolas e expandir ainda mais a nossa base de venda.”

O caminho para a sustentabilidade dos PV

O seminário marcou também o início do processo de desenho da estratégia de sustentabilidade dos PV, um passo essencial para garantir a continuidade e o crescimento destas iniciativas. Entre os aspetos discutidos, destacam-se:

  • A busca por parcerias justas, que possam apoiar e fortalecer as associações locais;
  • O apoio à formalização das associações, permitindo-lhes uma maior autonomia e acesso a novas oportunidades de financiamento e mercado;
  • O reforço das capacidades técnicas e organizacionais, para consolidar os PV como referências na agricultura sustentável da região.

Através destas iniciativas, o Programa DELPAZ reafirma o seu compromisso com o desenvolvimento rural sustentável, promovendo a resiliência dos agricultores e impulsionando a economia local. O seminário foi um passo importante para garantir que os Pontos Verdes continuem a crescer e a gerar impacto positivo nas comunidades onde operam.

Governos e população elogiam ganhos visíveis e reais com implementação do DELPAZ na província de Manica

A 6a reunião do comité provincial de coordenação do DELPAZ, realizada a 26 de Março de 2025, na vila de Guro, na província de Manica, com a participação dos parceiros e do GON, elogiou os ganhos “reais e impressionantes” com a implementação do Programa, destacando a geração de empregos e a redução da pobreza, criando assim um ambiente propício de reconciliação.

O comité, que avaliou o progresso das atividades entre Junho de 2024 a Março de 2025, realçou o sentimento de satisfação das comunidades, tendo o programa DELPAZ contribuído para a melhoria da qualidade de vida da população dos cinco distritos província de Manica onde é implementado o programa.

Entre os grandes feitos, destaca-se o aumento de produtividade agrícola, acesso á água potável, criação de oportunidades de emprego a jovens e beneficiários do DDR, acesso a infraestruturas essenciais, o que melhorou os meios de subsistência das comunidades rurais nos distritos afetados por conflitos, com especial enfoque nas mulheres e nos grupos desfavorecidos.

A adoção de tecnologias e práticas agrícolas inteligentes trouxe resultados históricos na agricultura naqueles distritos, com a produção pelas associações camponesas de 37 toneladas de tomate, 12 toneladas de couve, 11 toneladas de cebola, 10 toneladas de alface, 6 toneladas de maçaroca, 5 toneladas de feijão vulgar e igual quantidade de repolho, 4 toneladas de quiabo e a mesma quantidade de pimenta, 2 toneladas de pepino e outras de feijão verde, alem de 0.8 toneladas de cenoura.

800 produtores capacitados

Com essa produção mais de 1.400 famílias beneficiárias diretas tem dieta melhorada. Milhares de beneficiários indiretos também tiveram aumento de disponibilidade de alimentos nos distritos de Gondola, Barué, Macossa, Guro e Tambara.

Ainda na agricultura foram capacitados 886 produtores, incluindo 240 jovens agricultores e beneficiários do DDR e seus familiares, além da distribuição de mais de 20 toneladas de semente e 3500 instrumentos a camponeses em resposta ao fenómeno el-nino.

Na componente de infraestruturas, há que destacar a construção de mercado distrital de Macossa, de cinco armazéns agrícolas com duas repartições, equipados com máquinas de processamento nos distritos de Tambara, Macossa, Guro, Barué, estando de Gondola em fase de conclusão.

Foram construídos 4 sistemas de abastecimento de água movidos a energia solar em Sanhantuze (Barué), Nhauchanga (Tambara), Mwakwakwa (Gondola) e Cagole em Barué, além de fontes de água do tipo afridev em Guro e Gondola.

Igualmente foram construídos três sistemas de irrigação gota-a-gota, a base de energia solar em Guro e Macossa. Assim os camponeses trocaram a rega manual com um sistema mais sofisticado, o que esta a revolucionar a agricultura.

Foram estabelecidos 6 campos de demonstração dos resultados e 8 campos de multiplicação nos cinco distritos de Manica.

A ligação com feiras e eventos como a FACIM ampliou a visibilidade das comunidades e valorizou os seus produtos e talentos locais.

Os distritos ganharam também seis corredores de tratamento animal em Guro e Macossa e já entregues as comunidades.

Já na componente de formação 100 beneficiários foram graduados em cursos de culinária, alfaiataria, construção civil, serralharia mecânica, carpintaria e eletricidade. Mais de 30 por cento dos beneficiários são do DDR, sendo que deste número 64 são homens e 36 mulheres, alem da distribuição de 5 kits de empreendedorismo em cada distrito.

O comité provincial de coordenação de Manica, foi antecedido por uma visita de campo nos distritos de Barué, Macossa e Guro, onde foram inauguradas e entregues as comunidades dois sistemas de abastecimento de água movidos a energia solar, o mercado distrital de Macossa e três armazéns agrícolas, equipados dos respetivos equipamentos.

Entretanto, os governos locais desafiaram os empreiteiros a serem mais céleres na construção das infraestruturas.

A Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS), que implementa o DELPAZ nas províncias de Manica e Tete, em parceria com um consórcio de organizações da sociedade civil liderado da ONG Italiana Helpcode, anotou que continua comprometida nos esforços de desenvolvimento das comunidades.

Já o representante da União Europeia, que financia o Programa DELPAZ, manifestou satisfação pelos avanços na implementação do DELPAZ, frisando esperar por mais inaugurações de infraestruturas agora em construção, para ajudar na reintegração e desenvolvimento das comunidades, afastando assim os fantasmas da guerra.

A anfitriã do evento, a administradora Angelina Nguiraze, que enalteceu os resultados até agora alcançados, pediu mais sistemas de abastecimento de água a base de energia solar, para as comunidades do interior do distrito assolado por seca e sistemas de irrigação para potenciar a agricultura.

O embaixador Mário Nguenya, director do Gabinete de Ordenador Nacional de Moçambique (GON), voltou a elogiar o espirito de apropriação do programa pelos governos e líderes locais, que estão a facilitar a aceitação e sustentabilidade dos vários projetos, anotando que a extensão do DELPAZ até Dezembro de 2025 permitirá a conclusão de vários investimentos em curso.

Fazer as coisas acontecerem

“Espero que regressem a casa diferentes da forma como chegaram, que se sintam mudados: para que possam transformar as vossas vidas e as vidas das comunidades em que vivem. Façam as coisas acontecerem!” Foi com estas palavras que Hermenegildo Rodrigues Arnaldo, director do Instituto Agrário de Chimoio (IAC), encerrou no dia 13 de abril a cerimónia de entrega dos certificados de conclusão do primeiro curso de formação em ‘Produção agrícola, produção animal e técnicas de transformação’ a 72 jovens do Distrito de Barué, na Província de Manica.

O curso de formação profissional de curta duração, com a duração de duas semanas, contou com a participação de 18 mulheres jovens e 54 homens jovens, 20 dos quais provenientes de famílias beneficiárias do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR), em aulas teóricas e práticas sobre temas como a agricultura de conservação, técnicas de irrigação, controlo de pragas, criação de animais e produção de alimentos para animais, e a transformação e conservação de produtos agrícolas.

Nas próximas semanas, mais 328 jovens dos Distritos de Gondola, Guro, Macossa e Tambara vão participar em mais quatro ciclos de formação sobre os mesmos temas – uma das actividades chave do projeto DELPAZ na Província de Manica, que prossegue agora com estágios nas associações de produtores com quem o DELPAZ trabalha sob a supervisão dos técnicos agrónomos dos Serviços Distritais das Actividades Económicas formados em 2023.

Realizado pela Progettoomondo, um dos parceiros do consórcio que implementa o projecto, o curso decorreu no IAC, um dos parceiros institucionais do DELPAZ e também um dos principais institutos de formação profissional do país, que acolhe estudantes de todas as províncias e os forma em áreas como Agronomia, Medicina Veterinária, Engenharia Florestal e Conservação da Fauna Bravia, desempenhando um papel crucial na integração social e capacitação dos jovens.

O dia foi animado e alegre, entre momentos oficiais e trocas mais informais, que permitiram conversar com os alunos e alunas, que mostram – como se pode ler nas linhas seguintes – que regressam a casa com ideias e perspectivas muito diferentes, mas todos com grande motivação, e com novas amizades.

 

“Saio daqui com a ideia clara de que quero ir para a suinicultura: é a parte do curso que mais me apaixonou e tem um grande potencial” (Jordao Jairosse, de 31 anos, da comunidade de Honde)

“Já sou agricultor, mas aprendi coisas que não sabia, como a transformação de produtos agrícolas, que é algo que quero começar a fazer, nomeadamente com a produção de óleo de sésamo” (Armindo Inoque Jose, de 31 anos, de Nhassacara)

“Apercebi-me que quero continuar a formação e a estudar, gostaria que o curso tivesse durado mais tempo, mas depois apercebi-me do que me interessa” (Micheque Albertino Januario, de 21 anos, da comunidade de Chuala)

“Queremos trabalhar em grupo, organizarmo-nos. Vamos precisar de apoio, de alguns fundos para os primeiros investimentos, mas temos de começar” (Niquilone Fevereiro, 22 anos, de Chuala)

“Eu tenho o meu próprio campo. Cultivo milho, madumbe (taro), tseke (amaranto), mapira (sorgo). Onde é que eu gostaria de estar daqui a um ano? Gostava que os meus produtos fossem vendidos em Chimoio, aqui mesmo na cidade, a toda a gente”.  (Rosa Zeferino Manejo, 30 anos de Nhassacara)

 

 

Investir nas mulheres: acelerar o progresso

No dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher em todo o mundo, queremos recordar a mensagem lançada por Amélia Andalusa, de Dunda, distrito de Macossa, na província de Manica, durante o primeiro acampamento de mulheres organizado pelo Programa DELPAZ em novembro passado: “O conflito é um trauma para as mulheres, em todas as partes da nossa vida. Mas agora queremos continuar a viver em paz e queremos ser emancipadas, fazer agricultura, pequenos negócios, criar animais, sabemos também que existe a emancipação económica digital, onde podemos usar os nossos telefones para fazer comércio”.

Este ano, de facto, o Dia Internacional da Mulher de 2024 centra-se no tema crucial “Investir nas mulheres: acelerar o progresso”.[i] Uma oportunidade para refletir sobre a importância de garantir os direitos das mulheres e das raparigas em todas as esferas da vida, reconhecendo que isso não só alimenta economias prósperas e justas, mas também ajuda a preservar um planeta saudável para as gerações futuras.

O relatório da ONU Mulheres salienta que para alcançar a igualdade de género nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável são necessários 360 mil milhões de dólares por ano.[ii] No entanto, a atenção não deve limitar-se ao aumento do financiamento, mas também à reforma das instituições a todos os níveis, para que a promoção do empoderamento das mulheres se torne uma prioridade política e um investimento público essencial.

Para “acelerar o progresso”, a ONU Mulheres sublinha a necessidade de garantir o acesso das mulheres aos recursos financeiros, à terra, à informação e à tecnologia. [iii]A promoção de um emprego decente e sustentável, o reconhecimento do valor do trabalho de assistência das mulheres, o combate à violência baseada no género e a promoção da participação das mulheres em todos os processos de tomada de decisão são acções fundamentais.

O programa DELPAZ, um programa governamental moçambicano financiado pela UE, gerido em colaboração com o Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento de Capital (UNCDF) e a Agência Austríaca de Cooperação (ADA), e implementado pela Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) nas Províncias de Manica e Tete, e ADA na Província de Sofala,  está empenhado em traduzir estes princípios em acções concretas. Trabalhando em estreita colaboração com as instituições locais, o DELPAZ promove investimentos em infra-estruturas públicas para reduzir as desigualdades no acesso aos recursos e melhorar o empoderamento das mulheres.

O DELPAZ adopta uma abordagem inclusiva, trabalhando na sensibilização da comunidade para a construção da paz, a inclusão social e o combate à violência baseada no género. A agência também está empenhada em criar oportunidades de autoemprego através de cursos de formação profissional e de apoio à criação de microempresas, com ênfase na capacitação económica das mulheres. E fá-lo começando com vozes, pontos de vista, a criação de espaços para as mulheres – elementos fundamentais da agency das mulheres.

Um dos exemplos tangíveis do empenhamento do DELPAZ é o Acampamento solidário no distrito de Báruè, província de Manica, que decorreu nos finais de novembro de 2023. Esta prática colectiva promove a solidariedade, a inclusão e a diversidade, reforçando o papel das mulheres como actores locais e construindo a sua liderança. Através destes acampamentos, as mulheres participam ativamente nos processos de tomada de decisão, identificam vulnerabilidades e necessidades e constroem alternativas concretas apoiadas pelo programa. Assim, queremos celebrar este 8 de março de 2024 partilhando a Declaração redigida pelas mulheres e homens que participaram no Acampamento Solidário.

Nesse dia, Amélia Andalusa foi muito clara: “Já temos o nosso grupo de poupança e precisamos de sensibilizar outras mulheres. É por isso que queremos mais campos como este! Deviam ser organizados em todos os distritos, replicados e realizados nas comunidades, porque é assim que capacitamos as mulheres e também os homens.”

A AICS intensifica os seus esforços através de iniciativas centradas no acesso das mulheres aos recursos financeiros, à terra e às tecnologias da informação e da comunicação (TIC). Projectos como o “Coding Girls” visam melhorar as competências das mulheres, abrindo novas oportunidades de acesso a empregos dignos nas TIC. Além disso, iniciativas como “As Mulheres do SUSTENTA” contribuem de forma concreta para a promoção da igualdade de participação e de liderança das mulheres nas zonas rurais.

O compromisso do AICS, tal como o do Programa DELPAZ, reflecte uma abordagem holística e orientada para a resolução das desigualdades de género, fornecendo soluções concretas e sustentáveis para garantir o bem-estar e o empoderamento das mulheres em 2024 e nos anos seguintes.

[i]   https://www.unwomen.org/en/news-stories/announcement/2023/12/international-womens-day-2024-invest-in-women-accelerate-progress

[ii] https://www.unwomen.org/en/digital-library/publications/2023/09/progress-on-the-sustainable-development-goals-the-gender-snapshot-2023

[iii] https://www.unwomen.org/en/news-stories/explainer/2024/02/five-things-to-accelerate-womens-economic-empowerment

 

Do conflito à agricultura: Evelina, um exemplo de renascimento graças ao programa DELPAZ

Em Moçambique, em particular no distrito de Gondola, na província de Manica, uma mudança positiva está a transformar vidas e comunidades graças ao programa DELPAZ. Este programa está a demonstrar o seu impacto concreto através de histórias de renascimento como a de Evelina, uma antiga guerrilheira envolvida no processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração Social (DDR).

Testemunha desta transformação, Evelina partilhou recentemente a sua experiência através de um artigo publicado no jornal SAVANA. Da sua vida no conflito, está agora a enveredar por um novo caminho centrado na agricultura e no bem-estar da sua família. O seu testemunho é não só uma inspiração, mas também uma prova tangível do valor de programas como o DELPAZ na mudança de destinos e na regeneração de comunidades, e reflecte o sucesso de uma abordagem holística que vai para além da mera assistência, investindo no potencial humano e nos recursos locais.

O Programa DELPAZ procura coordenar esforços entre o governo, os parceiros e as organizações da sociedade civil para investir em infra-estruturas, desenvolvimento agrícola e empreendedorismo. Este esforço tem como objetivo relançar a economia das comunidades afectadas por conflitos em 14 distritos das províncias de Manica, Tete e Sofala. Graças ao financiamento da União Europeia e à implementação da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) em Manica e Tete; da Agência Austríaca de Desenvolvimento (ADA) em Sofala; com o apoio do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento do Capital (UNCDF), o DELPAZ apoia a criação de oportunidades para melhorar a vida de muitas pessoas.