Workshop de validação do do estudo estratégico sobre a expansão da rede de Centros Multimédia Comunitários e da da Rede do Governo

No dia 18 de junho, realizou-se, em Maputo, o workshop de validação do estudo estratégico sobre a expansão da rede de Centros Multimédia Comunitários (CMC) e da Rede do Governo (GovNet).

O evento reuniu cerca de 90 participantes, representando instituições governamentais, parceiros de desenvolvimento, entidades académicas e de investigação, organizações da sociedade civil e o setor privado.

Entre os participantes de destaque estiveram o Dr. Fabio Strinati, dirigente do Ufficio III – Opportunidade e Desenvolvimento Económico da Agência Italiana para a Cooperação para o Desenvolvimento (AICS); Maria Cristina Pescante, Vice-Diretora e Regente ad interim da Sede Regional da AICS em Maputo; Igna Macule, Inspetora-Geral do Ministério das Comunicações e Transformação Digital (MCTD), Deborah Capela, Responsável do Sector da Digitalização na Delegação da União Europeia em Moçambique.

O workshop marcou a fase final do estudo estratégico comissionado pela AICS e implementado pela empresa de consultoria NIRAS Moçambique, em estreita colaboração com a Delegação da União Europeia em Maputo e o MCTD.

O estudo é financiado no âmbito do programa D4D Hub, uma plataforma multilateral liderada pela União Europeia que opera segundo a abordagem Team Europe. A iniciativa promove parcerias multissetoriais e impulsiona investimentos para apoiar uma transformação digital centrada nas pessoas, constituindo um instrumento-chave para a concretização das ambições digitais da estratégia Global Gateway.

Abrangendo cinco províncias e 17 distritos de Moçambique, o estudo teve como objetivo gerar evidências técnicas, identificar opções operacionais e assegurar a validação institucional necessária para apoiar a tomada de decisões sobre a expansão da GovNet e o desenvolvimento da rede de CMC.

Esta abordagem permitiu produzir uma base sólida e partilhada de evidências, essencial para orientar as futuras decisões do Governo de Moçambique relativamente à expansão da GovNet e ao reforço dos Centros Multimédia Comunitários, dois pilares fundamentais para garantir o acesso das populações rurais aos serviços públicos digitais, contribuindo para a redução das desigualdades territoriais e para uma transformação digital mais inclusiva.

Durante a sua intervenção, o Dr. Fabio Strinati sublinhou que: «Todas estas iniciativas demonstram como o D4D Hub se tornou um instrumento concreto para reforçar o diálogo político, facilitar a transferência de conhecimentos e construir parcerias duradouras entre a Europa e os países parceiros. Demonstram igualmente o valor da abordagem Team Europe, que permite mobilizar de forma coordenada as competências, os recursos e as capacidades operacionais dos Estados-Membros e das instituições europeias

O estudo constitui ainda um exemplo concreto desta abordagem, assente na escuta, na recolha de evidências e na colaboração entre atores públicos e privados, com vista à formulação de recomendações realistas, orientadas para a ação e capazes de apoiar o Governo de Moçambique nas suas decisões estratégicas.

As evidências geradas pelo estudo permitirão agora orientar a expansão da GovNet para novos distritos, contribuindo para a redução da brecha digital e para a promoção de um acesso mais equitativo aos serviços públicos digitais em todo o país.

O sorriso de Adinha

Na aldeia de Muda Serração, onde o som das máquinas já não ecoa há muitos anos e o tempo parece caminhar ao ritmo da terra, vive Adinha Pita, uma jovem de 26 anos com um sorriso que insiste em brilhar, mesmo quando a vida pesa.

Muda Serração recebeu o seu nome de uma antiga serração, a mais velha da província de Manica, hoje silenciosa. Ali, as mulheres trabalham a terra, cuidam dos filhos e da casa e os homens, na sua maioria, partem para as minas da África do Sul.

Adinha também já teve os seus sonhos construídos a dois. Mas a vida, por vezes, escolhe caminhos difíceis. Problemas pesados no casamento fizeram-na regressar à casa dos pais, levando consigo o que mais importa: a sua filha Betty, de 6 anos, e o pequeno António, ainda com apenas 4 meses.

O pai das crianças ficou para trás — e com ele, a responsabilidade que nunca chegou em forma de apoio. Mas Adinha não fala disso com amargura. Fala do futuro.

Enquanto António sorri na capulana que o beleca nas costas da mãe, ela imagina o dia em que poderá começar de novo. Espera apenas que o bebé cresça um pouco mais, que atinja os seis meses, para poder sair à procura de trabalho — ou melhor ainda, criar o seu próprio caminho.

Ecco una versione con un tono leggermente più narrativo, mantenendo comunque la coerenza istituzionale:

Adinha deu um passo decisivo quando frequentou um curso de culinária no IFPELAC, em Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Foi selecionada entre outros candidatos e, desde o início, destacou-se pela dedicação e vontade de aprender. Ao longo da formação, aperfeiçoou técnicas, ganhou confiança e começou a imaginar novas possibilidades para o seu futuro.

No final, recebeu mais do que um certificado: recebeu ferramentas para sonhar. Uma chaleira elétrica, uma batedeira, uma mesa, uma cadeira e um forno elétrico para bolos — pequenos bens que, nas mãos certas, se transformam em pontes concretas para um futuro diferente.

“Aqui não é fácil vender bolos — diz ela. — As pessoas não estão muito habituadas a festas. Isto é campo.” Os preços dos bolos variam entre 650 a 1000 meticais conforme a grandeza.

Mesmo assim, há dias especiais. O dia 1 de junho, por exemplo, quando se celebra o Dia da Criança. Nesses momentos, alguém se lembra de Adinha. E ela responde, com dedicação, transformando farinha, ovos e açúcar: bolos pintados que fazem a alegria da festa.

E Adinha sonha mais do que os bolos. Ela imagina um pequeno espaço à beira da estrada — Muda Serração fica entre Muxúnguè e Inchope — um lugar onde os viajantes possam parar e encontrar comida quente: arroz, caril, chamussas. Uma pequena banca onde possa vender comida pronta e ganhar o suficiente para os seus filhos e ela. “Aqui não há bancas assim — diz ela. — Seria uma boa oportunidade.”

E ela acredita. Acredita com uma certeza calma, daquelas que não fazem barulho, mas resistem. Não está sozinha. O senhor André Bartolomeu, ponto focal do DELPAZ no distrito de Gondola, acompanha o seu percurso com atenção.

“Ela é uma boa menina — diz ele. — Mostrou isso no curso. E tem batalhado muito.”

Ele acredita que Adinha vai conseguir o seu espaço. E ela também acredita.

Para já Adinha encontra força nas pequenas coisas: no riso da Betty, no respirar tranquilo de António, e nas mensagens trocadas com as colegas do curso, num grupo de WhatsApp onde partilham ideias, desafios e coragem.

Porque, no fundo, Adinha sabe: a sua história não é feita apenas de dificuldades.

E enquanto o mundo ao seu redor parece parado, como a velha serração que deu nome à aldeia, dentro dela tudo continua em movimento. O futuro ainda não chegou — mas já começou.

 

O primeiro serralheiro de Pindanganga

Lucas Daniel tem 22 anos e nunca saiu de Pindanganga, uma pequena aldeia no distrito de Gondola. Foi ali que cresceu, entre terra vermelha, mangueiras, canas-de-açúcar, campos de milho e mapira. Estudou até à décima classe e, depois disso, passou a dedicar-se à machamba dos pais.

Durante muito tempo, o seu futuro parecia já traçado: trabalhar a terra, tal como o pai. No entanto, em 2024, surgiu uma oportunidade que viria a mudar o rumo da sua vida. Lucas foi selecionado, juntamente com outros vinte jovens do distrito, para frequentar um curso de formação no IFPELAC, em Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local.

Foram apenas duas semanas, mas intensas — tempo suficiente para lhe abrir novos horizontes e despertar novas perspectivas sobre o seu futuro.

Na sua aldeia já não havia nenhum serralheiro. Qualquer problema com peças metálicas obrigava as pessoas a percorrer dezenas de quilómetros. Lucas viu nessa ausência uma oportunidade. Escolheu, sem hesitar, o curso de serralharia.

Após a formação, regressou a Pindanganga com uma ideia clara: começar imediatamente. Em agosto 2025, com o kit que recebeu e muita determinação, abriu uma pequena oficina improvisada à entrada da loja de uma senhora que vende um pouco de tudo, no final da estrada principal da aldeia. Para já, não paga renda. Comprou um pequeno gerador de 220 watts, pago em prestações, e deu início à sua actividade.

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, das sete da manhã até ao pôr-do-sol, Lucas está ali. Solda, repara, conserta. Faz aquilo que antes ninguém podia fazer na aldeia.

No dia em que o encontrámos estava a trabalhar numa mota. Uma moeda de 10 meticais tinha provocado um furo numa peça metálica. Lucas conseguiu pequenos pedaços de chapa, adaptou-os com cuidado e, com a sua máquina de soldar, deu nova vida à peça danificada. O cliente pagou 230 meticais — um serviço que, sem ele, implicaria uma longa deslocação. Lucas consegue ter um lucro de 2.000 meticais por semana, ainda não tem conta bancária e costuma depositar no E-mola.

Ao fim-de-semana, Luca dedica-se à igreja, à sua formação e a ajudar o pai nos campos. Mas a sua mente continua cheia de planos.

O seu sonho é claro: adquirir um gerador mais potente e uma máquina de soldar mais resistente — a que tem actualmente é fraca, aquece facilmente e obriga-o a interromper o trabalho com frequência. Mais do que isso, quer construir uma oficina verdadeira, um espaço próprio onde possa trabalhar e, quem sabe, formar outros jovens.

Já escolheu até o nome: “Oficina Majdimba”, em homenagem ao pai.

O projecto é ambicioso, mas concreto: entre terreno, materiais de construção e um novo gerador, calcula um custo total de cerca de 50.000 meticais.

O pai, Majdimba — cujo verdadeiro nome é Daniel Maparadji — acompanha tudo isto com orgulho. Antigo combatente da Renamo, natural do distrito de Buzi, na província de Sofala, viveu os anos difíceis da guerra civil. Desmobilizado em 1992 e novamente em 2021, após o Acordo de Maputo de 2019, vê hoje no percurso do filho um sinal de esperança e renovação. Onde ele conheceu a guerra, Lucas constrói o futuro — peça a peça.

 

Soldar o futuro

Na vila de Catandica, no distrito de Báruè, a vida não seria nunca fácil para Izaquel Mário. Com apenas 18 anos e tendo estudado até à oitava classe, o futuro parecia incerto e com poucas oportunidades. Numa terra onde o emprego é escasso, muitos jovens acabam por perder a esperança cedo demais.

A vida de Izaquel começou a mudar quando foi selecionado para participar num curso de formação promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Filho de um antigo combatente da Renamo, viu nessa oportunidade uma porta aberta para um novo caminho. Partiu para Chimoio com outros jovens e optou pelo curso de serralharia no IFPELAC.

Foram duas semanas intensas, cheias de aprendizagem. Apesar de curtas, deram-lhe as bases de uma profissão e, sobretudo, a possibilidade de acreditar num futuro diferente. Izaquel é tímido e não fala bem português, mas quando se expressa na sua língua local, fala com confiança — e é aí que se percebe a sua determinação.

Ao seu lado está sempre o pai, Mário Amadeu, um homem de ideias claras e grande sentido de responsabilidade. Com doze filhos, sabe bem o valor de uma oportunidade. “Temos de ajudar os nossos jovens a encontrar um caminho”, diz. “Sem trabalho, o que podem fazer? Se não lhes damos oportunidades, correm o risco de seguir por caminhos errados.” Mário Amadeu é um dos DDR do Acordo de Maputo de 2019. Já tinha sido desmobilizado em 1994, depois da assinatura do Acordo geral de Paz em 1992, tendo ingressado na luta em 1982, na província de Sofala. Hoje só quer a paz!

Depois da formação e de receber o kit de trabalho, o pai percebeu que não seria fácil para o Izaquel começar sozinho. Duas semanas não eram suficientes para dominar o ofício. Foi então que decidiu procurar ajuda de um mestre serralheiro para iniciar a actividade.

Assim recrutou Alberto Linosse Macolone, que aprendeu a profissão no Zimbabwe, mas nunca tinha tido oportunidade de trabalhar ao regressar. Quando recebeu a proposta, aceitou de imediato.

Hoje, Izaquel e Alberto, sob a alçada do pai Mário, trabalham numa pequena oficina situada à entrada de Catandica, ao longo da N6. O espaço foi cedido gratuitamente por um comerciante local, o que representa uma grande ajuda. Com esforço, começaram a produzir cadeiras de ferro, carrinhos de mão e grades para janelas.

Os rendimentos: uma cadeira é vendida por 250 meticais, um carrinho de mão por 2.500, e as grades rendem cerca de 500 meticais pela mão de obra. Não é muito, mas é suficiente para garantir o essencial.

Mais importante ainda, é o começo de uma nova história. Entre o som do ferro a ser moldado e o trabalho diário, Izaquel não está apenas a aprender um ofício — está a construir o seu futuro. E o pai Mário pode dedicar-se à sua machamba sempre com o olho para a oficina à beira da estrada.

 

João e a Ana: a luz de Nhamassonge

No coração de Nhamassonge, onde a estrada principal segue firme em direcção à histórica Fortaleza de Massangano, alberga um sonho de dois jovens electricistas. O João e a Ana. Há uma banca, no final das outras no mercado, ainda sem todo o material, mas já cheia de propósito. É ali que João Augusto Toeza, de 24 anos, começa a dar forma ao seu futuro.

João apresenta ideias claras — claras como a luz — o que talvez explique a sua escolha pelo sector da electricidade. Após a frequência do curso de electricidade instaladora no IFPELAC, na cidade de Chimoio, promovido no âmbito do programa DELPAZ, em coordenação com as autoridades distritais para o reforço da formação profissional e do desenvolvimento local, regressou com uma nova perspectiva. Regressou não apenas com conhecimentos técnicos acrescidos, mas também com uma visão mais ampla sobre o seu futuro e o contributo que pode oferecer à sua comunidade.

Não voltou sozinho. Ao seu lado está Ana Assane Saísse, também com 24 anos, colega de formação e agora sócia no negócio. Juntos, sonham alto, mesmo que os recursos ainda sejam poucos. A banca já está construída, alinhada com as outras no mercado. Falta apenas a placa que anunciará ao mundo: “Luz de Nhamassonge – instalações e material eléctrico”.

Mas nem tudo é simples. Em Nhamassonge, não há material eléctrico disponível. Cada fio, cada interruptor, cada lâmpada precisa de vir do Guro. “É um problema”, diz João, com a serenidade de quem já aprendeu a não desistir perante dificuldades. O dinheiro também escasseia, e cada metical conta. Ainda assim, vão avançando, passo a passo.

Enquanto o negócio não ganha forma completa, João e Ana continuam a trabalhar. Fazem instalações nas redondezas — serviços simples, mas essenciais. Por 500 meticais, levam luz às casas, enquanto o material fica por conta dos clientes. É pouco, mas é um começo.

A comunidade já reconhece o valor do jovem electricista. A chefe do posto administrativo, Marta João Dafrene, não esconde a satisfação: antes, qualquer avaria significava espera por alguém vindo do Guro. Agora, João resolve. E resolve bem.

O curso, apesar de breve, trouxe mais do que conhecimento técnico. Para muitos jovens de Nhamassonge, foi a primeira vez fora da sua terra. A primeira viagem de machimbombo até Chimoio. Uma experiência que abriu horizontes e mostrou que o mundo é maior — e cheio de possibilidades.

E ali, entre sonhos e desafios, está também a pequena Eduarda, dormindo tranquilamente às costas da mãe, protegida pela capulana. Talvez sem saber, já faz parte desta história de coragem e construção.

João sorri quando fala do futuro. “Quando tivermos tudo pronto, com material e a placa no lugar, havemos de enviar uma fotografia.” Não é apenas uma promessa — é uma certeza.

 

Nas machambas de Sanga, entre tradição e inovação

Em Sanga, um bairro outrora cheio de vida no distrito de Guro, há poucas casas. Com o passar dos anos, grande parte dos seus habitantes mudou-se para uma zona mais próxima da vila, em busca de melhores condições — energia elétrica, água e outras facilidades. Esse novo espaço passou a chamar-se oficialmente Sanga 2, embora os habitantes tenham dado o nome de Medzachumbo. Mas nem todos partiram.

Entre aqueles que ficaram está o senhor Feniasse Pita, presidente da Associação Sinembo — “Não fui eu” — uma organização dedicada ao apoio de órfãos e idosos. Com a sua família, continuou a cultivar a terra que sempre sustentou gerações. A sua machamba, vasta e fértil, é um verdadeiro mosaico de vida: hortícolas frescas, milho e árvores de fruto que oferecem goiabas, limões, laranjas e tangerinas. Pelo mato adentro, ao pé da montanha, tem ainda colmeias melhoradas, que produzem um mel de qualidade invejável.

Foi neste ambiente que cresceu Tendai Pita, seu filho, hoje com 31 anos. Desde cedo, aprendeu os fundamentos da agricultura, observando o pai e trabalhando a terra. Contudo, Tendai ambicionou ir mais além. Frequentou o Instituto Superior Politécnico de Manica e, em 2024, foi selecionado para um curso de formação no Instituto Agrário de Chimoio (IAC), promovido no âmbito do programa DELPAZ, em coordenação com as autoridades e instituições locais, no quadro do apoio à formação e ao fortalecimento de iniciativas como a associação Sinembo.

Para Tendai, a formação foi mais do que uma revisão — foi uma descoberta. “Já conhecia muito daquilo que os formadores explicavam, mesmo assim aprendi muitas coisas novas”, afirma com convicção. Ao lado do seu colega Edson Lenate, de 28 anos, e mais cinco jovens, começou a aplicar esses conhecimentos numa machamba de quase meio hectare, cedida pelo seu pai.

O campo está coberto de alfaces e outras hortícolas. Com sementes recebidas no kit do DELPAZ, lançaram a primeira colheita, venderam e reinvestiram. “Esta será a nossa segunda colheita e esperamos ganhar o suficiente para começar a ter algum dividendo”, conta Tendai, com esperança no olhar.

Entre as técnicas que mais os entusiasmaram está a produção de bio pesticidas. Com ingredientes simples como piripiri, sabão e folhas de mamona (rícino), aprenderam a proteger as plantas de pragas de forma mais sustentável. “O sabão ajuda a fixar a mistura e prende as pragas”, explicam. Mesmo assim, quando a infestação é grande, recorrem a inseticidas — mas com cautela e monitorização diária.

Outra inovação foi o uso da cobertura morta, uma técnica que ajuda a conservar a humidade do solo — algo que nunca tinham experimentado antes.

O kit colectivo também incluiu ferramentas essenciais: enxadas, catanas, regadores e uma motobomba. Apesar da escassez de combustível, encontraram uma solução criativa. “Usamos a motobomba com energia solar do papá”, diz Tendai, com orgulho.

A produção é vendida no mercado de Guro ou directamente na machamba, onde os clientes vão. Edson, por sua vez, destaca outro aprendizado importante: a conservação do milho. “Antes guardávamos a maçaroca inteira. No IAC aprendemos a debulhar e guardar apenas os grãos, o que melhora a conservação.”

Para estes jovens, o curso foi uma verdadeira mais-valia. Os resultados já são visíveis na terra que cultivam e no entusiasmo com que falam do futuro. E, por trás de tudo, entre as montanhas que rodeiam a machamba, permanece o olhar atento e experiente do senhor Feniasse — um guia silencioso que continua a semear conhecimento e esperança.

 

 

Sonhar alto no meio do mato

No coração do distrito de Guro, encontra-se o posto administrativo de Nhamassonge. É uma terra de cerca de onze mil habitantes, conhecida pelo nome que herdou dos massonge, pequenos pepinos de casca com picos que crescem com resistência naquele solo quente e poeirento com embondeiros centenários.

É ali que vive Carlitos Eusébio Zondane, um homem de 35 anos cuja vida é feita de trabalho, sonhos e persistência.

À beira da estrada principal, muito perto da sede do posto administrativo, juntamente com outras, ergue-se a sua banca — simples, mas cheia de vida. Ali, Carlitos vende refrigerantes, pequenos alimentos e o tradicional malambe (fruto do embondeiro). Ao mesmo tempo, exerce outra função essencial para a comunidade: é agente E-mola, facilitando transações e ligando pessoas num mundo cada vez mais digital.

Mas Carlitos não parou por aí.

Movido por uma visão mais ampla, decidiu aprender uma nova profissão. Em 2024, foi selecionado para um curso de formação promovido no âmbito do programa DELPAZ, em cooperação com as autoridades distritais, no quadro do desenvolvimento económico local. Foram apenas duas semanas, mas intensas — tempo suficiente para despertar nele uma nova vocação. Tornou-se serralheiro mecânico.

A escolha não foi por acaso. Na sua região, não existia nenhum serralheiro mecânico. Onde muitos viam uma limitação, Carlitos viu uma oportunidade.

Recentemente, deu mais um passo: abriu a sua própria minioficina de serralharia, alimentada pela energia dos painéis solares instalados na aldeia. Para Carlitos, cada peça trabalhada representa não só rendimento, mas também orgulho.

A sua determinação já o levou mais longe do que alguma vez imaginara. Pela primeira vez, apanhou um avião rumo a Maputo. Lá, em novembro de 2025 participou numa conferência organizada pelo Instituto para a Democracia Multipartária (IMD), parceiro do DELPAZ. Guarda com carinho as fotografias dessa viagem — especialmente aquelas em que aparece ao lado de Dom Dinis Sengulane e Oscar Monteiro. Sempre que as mostra, os seus olhos brilham.

“Foi maravilhoso!” — diz, sem esconder a emoção.

Apesar das conquistas, Carlitos mantém os pés firmes no chão. Cumpre com os seus impostos e trabalha diariamente para melhorar a sua arte. O seu maior desejo agora é claro: obter a licença oficial de serralheiro. “Já tenho o certificado, mas sei que preciso juntar algum valor para conseguir a licença.”

E assim segue Carlitos, entre o som do metal e o movimento da estrada, construindo o seu futuro com as próprias mãos. Num lugar onde as oportunidades são raras, ele tornou-se exemplo de que, com coragem e determinação, é possível abrir caminhos — mesmo no meio do mato.

 

Entre fios e desafios: Eneida continua a sonhar

Eneida Domingos, de 21 anos, sempre acreditou que o seu futuro poderia ser diferente. Determinada, curiosa e esforçada, foi selecionada para frequentar o curso de Electricidade Instaladora no IFPELAC, no âmbito da formação promovida pelo DELPAZ, em coordenação com as autoridades distritais locais, responsáveis pela mobilização e selecção dos participantes — uma escolha que viria a transformar a sua vida.

Filha de um ex-guerrilheiro da Renamo, Eneida cresceu num contexto marcado pelos impactos do conflito armado no seu distrito, o que atrasou não apenas o desenvolvimento local, mas também o acesso a tecnologias modernas, incluindo sistemas de iluminação mais eficientes e harmoniosos, como os observados em cidades mais desenvolvidas do país e do mundo.

Desde o início da formação, destacou-se pela sua dedicação. Enquanto muitos colegas aproveitavam os intervalos para descansar, Eneida permanecia na sala, concentrada em fios, circuitos e ligações que tanto a fascinavam. “Eu gostava mesmo daquilo”, recorda. “A electricidade fascinava-me e sentia que podia ser uma grande oportunidade para mim.”

Numa entrevista anterior enquanto estava a frequentar o curso, tinha afirmado que essa foi a oportunidade que encontrou para se formar, permitindo-lhe adquirir conhecimentos para concretizar o seu sonho: ver a sua vila a utilizar tecnologias modernas na iluminação de casas e ruas, com soluções como o uso de fotocélulas — que permitem acionar a iluminação automaticamente — ou lâmpadas inteligentes controladas por aplicações, ainda pouco exploradas na sua região, apesar de já serem comuns em outros lugares.

“A formação ajudou-me a ter ideias para fazer mudanças no meu distrito, trazer soluções que muitas pessoas já utilizam em cidades mais evoluídas”, afirmava com entusiasmo.

Após concluir o curso, regressou à vila de Guro levando consigo não apenas conhecimento técnico, mas também um propósito. Pouco tempo depois, conseguiu um estágio de 45 dias na Electricidade de Moçambique (EDM), onde aprofundou as suas competências. “Aprendi muito mais do que simples instalações elétricas. Foi uma oportunidade enorme de crescimento, mas infelizmente a EDM não está a contratar novo pessoal.”

No entanto, o regresso à realidade trouxe desafios. Num contexto ainda marcado por preconceitos, Eneida deparou-se com olhares de desconfiança e dúvidas sobre a capacidade de uma mulher numa profissão tradicionalmente dominada por homens. “Ainda é mal vista uma mulher electricista”, afirma. “Mas não é verdade que não sabemos fazer o trabalho. Somos tão capazes quanto os homens.”

Num mundo onde o machismo ainda limita oportunidades, seguir um sonho exige mais do que talento — exige coragem. E Eneida tem demonstrado isso todos os dias.

Aos poucos, surgiram oportunidades. “Já fiz algumas instalações em casas”, conta. “Ainda são poucas e não consigo garantir o meu sustento.” Cada trabalho rende cerca de 600 meticais, um valor ainda insuficiente para alcançar estabilidade, especialmente num contexto de forte concorrência na vila.

Mesmo assim, Eneida não desiste. Continua a acreditar que os sonhos são possíveis, mesmo quando o caminho é mais difícil para uma mulher. “Gostaria de abrir uma empresa feminina de instalações eléctricas. Esse ainda é o meu sonho.”

No último ano, realizou mais de dez instalações e começa, lentamente, a ganhar reconhecimento. Com o olhar voltado para o futuro, pondera mudar-se para Mungari, onde há menos concorrência e maior procura por serviços elétricos. “Ainda estou a pensar. Já há electricidade em Mungari e não há electricistas. Preciso juntar algum dinheiro para me manter nos primeiros meses. Tenho conhecidos lá que podem ajudar.”

A história de Eneida é um exemplo de persistência num mundo que nem sempre facilita o caminho para as mulheres. É a prova de que, apesar dos obstáculos, os sonhos continuam vivos — e que, com coragem e determinação, é possível ir iluminando o futuro, passo a passo, fio a fio.

 

O Ponto Verde de Macossa já pode contar com um tractor

Em Macossa, o Ponto Verde voltou a ganhar vida. Os membros da Associação demonstram satisfação e elogiam os avanços para o desenvolvimento económico do Distrito, através do programa DELPAZ, em parceria com o governo local e com o Instituto Agrário de Chimoio (IAC).

Recentemente, graças a parceria entre o Programa DELPAZ e o IAC, o Ponto Verde de Macossa, tendo demonstrado um empenho constante em impulsionar a atividade produtiva no distrito, ganhou um trator equipado com charrua, grade, semeador, sulcador, escarificador, entre outros implementos agrícolas. A iniciativa veio acelerar o trabalho no campo: tarefas que antes levavam semanas com recurso à enxada passam agora a ser realizadas em poucas horas. “O DELPAZ não ofereceu apenas uma máquina, deu-nos mais tempo para produzir e sonhar mais alto”, afirmam os agricultores.

O presidente da associação, Quentino Suíte Tomo, explicou que, antes do apoio do DELPAZ, enfrentavam condições difíceis devido à falta de recursos e maquinaria. Com os meios agora disponíveis, incluindo o trator, preveem preparar e expandir a área de cultivo de cinco hectares para mais de 30 hectares, destinados à produção de diversas culturas.

A entrega contou com a presença do ponto focal do DELPAZ, Ergínio Alberto Romão, técnicos do Serviço Distrital de Actividades Económicas (SDAE) e outros representantes do governo local. O equipamento já está em pleno funcionamento e beneficia mais de 30 membros da associação, na sua maioria mulheres e jovens agricultores.

 Mais área, menos esforço

Antes da mecanização, cada família cultivava, em média, meio hectare por campanha agrícola. Com o trator, espera-se triplicar essa área. O tempo de preparação da terra poderá reduzir de cerca de 15 dias para menos de dois dias. Isso permitirá aproveitar melhor o período das chuvas e diminuir as perdas. Mesmo em períodos de escassez de precipitação, o Ponto Verde dispõe de um sistema de rega alimentado por energia solar, que capta água da zona baixa para irrigar as culturas.

“Trabalhávamos do nascer ao pôr do sol e a terra continuava dura. Agora o trator vai facilitar o trabalho e podemos concentrar-nos na sementeira e na colheita”, afirmou Quentino Suíte Tomo. Para ele, o equipamento representa menos esforço físico e maior produtividade.

Parceria com resultados

Este passo coloca-se na agenda de desenvolvimento do Distrito de Macossa, que reconhece na mecanização agrícola em favor dos pequenos produtores um passo importante para a economia rural e a segurança alimentar.
Para além do fornecimento do equipamento, através do programa DELPAZ, é incentivada a manutenção preventiva dos equipamentos, garantindo a correta gestão e maior durabilidade.

O administrador do distrito, Albano Daniel Muiambo, destacou a importância da cooperação para o desenvolvimento e para a paz: “Quando o sector privado e o governo trabalham juntos, o impacto sente-se directamente no campo. Este trator demonstra que investir na agricultura é investir no futuro do distrito.”

Por sua vez, o ponto focal do DELPAZ sublinhou que o objectivo vai além da mecanização: pretende-se aumentar a produção, gerar excedentes e melhorar a comercialização. O distrito já dispõe de infraestruturas como armazéns e mercado para apoiar esse crescimento, graças ao DELPAZ. O próximo passo será reforçar a organização da venda e a definição de preços justos para os produtos locais.

Impacto na comunidade
Com mais terra preparada, a associação prevê aumentar em cerca de 80% a produção de culturas como milho, mapira, cebola, quiabo, couve, alface, pimento, piripíri, pepino, cenoura e feijão. O excedente será comercializado localmente, contribuindo para o rendimento das famílias e para a segurança alimentar da região.

Apesar dos avanços, nos últimos meses persistem desafios, como a escassez de combustível que afectou também Moçambique. Para ultrapassar essa dificuldade, os membros se disponibilizaram para criar um fundo comunitário destinado à manutenção e abastecimento do trator, assegurando a continuidade das actividades após o período de apoio inicial do DELPAZ.

 

Cooperação Italiana promove o desenvolvimento da primeira Estratégia de Turismo Sustentável na Ilha da Inhaca

De 13 a 15 de Maio, teve lugar o Fórum Estratégico de Stakeholders na Ilha de Inhaca. O Fórum constituiu um ponto estratégico para o desenvolvimento do turismo sustentável na Ilha de Inhaca e, durante três dias, reuniu autoridades locais, investigadores, operadores turísticos, régulos e representantes comunitários para desenhar um documento orientador de protecção dos ecossistemas e promoção do desenvolvimento económico inclusivo das comunidades locais.

O encontro representou, assim, um ponto de partida para a construção de uma estratégia comum para o desenvolvimento do Turismo Sustentável da Ilha de Inhaca. A iniciativa decorreu no âmbito do programa Mangrowth, financiado pela Cooperação Italiana, e foi organizada pela ONG ICEI – Istituto Cooperazione Economica Internazionale.

O primeiro dia do Fórum Estratégico de Stakeholders contou com a presença de Sua Excelência Vicente Joaquim Imedede, Secretário de Estado, assim como da Vice-Directora e Regente ad interim, Maria Cristina Pescante, entre outras individualidades.

Durante a sua intervenção, Maria Cristina Pescante sublinhou que “os projectos, tanto passados como actuais, promovidos pela AICS no sector ambiental, sempre se demonstraram relevantes para assegurar a conservação da biodiversidade, enfrentar os impactos negativos provocados pelas mudanças climáticas e promover um desenvolvimento socioeconómico sustentável no País”.

Por seu lado, Sua Excelência Vicente Joaquim Imedede destacou que “a Ilha de Inhaca é uma joia de biodiversidade e turismo sustentável, com grande potencial no ecoturismo, na pesca e na conservação. Destaca-se pelas praias paradisíacas, recifes de corais, mangais e pela pesquisa científica, sendo um local privilegiado para vivenciar a natureza intocada”, realçando ainda que “a ilha é reconhecida como o pulmão da Cidade de Maputo”.

Durante a sua intervenção, destacou ainda que a nova ponte-cais, inaugurada no dia 6 de Março de 2026, veio melhorar significativamente a acessibilidade à Ilha de Inhaca, deixando de depender das marés para o embarque e desembarque. Acrescentou que esta infraestrutura “vai trazer mais turistas”, sublinhando, por isso, a importância de envolver as comunidades locais no processo de desenvolvimento turístico sustentável.

O ponto de partida para o desenvolvimento desta estratégia começou com uma visita de estudo realizada, em Outubro de 2025, por uma delegação moçambicana ao Parque Nacional do Arquipélago da Toscana, em Itália. A visita teve como objectivo conhecer e analisar boas práticas internacionais, criar paralelismos com destinos de características ambientais e socioeconómicas semelhantes, reforçar a planificação partilhada e promover o desenvolvimento de um modelo de turismo regenerativo. Foi desta experiência que nasceu a ideia de desenvolver uma estratégia comum para o Turismo Sustentável da Ilha de Inhaca.

No primeiro dia do Fórum, contou-se ainda com a participação virtual de Marino Garfagnoli, Director do Director do Infopark no Parque Nacional do Arquipélago Toscano, que abordou o papel do sector privado na conservação do Parque, considerado uma das maiores áreas protegidas marinhas da Europa, destacando exemplos de cooperação entre instituições, comunidades e operadores turísticos para a promoção de um turismo sustentável e responsável.

Os próximos passos consistirão na realização de um conjunto de sessões de apoio técnico e institucional, envolvendo a Secretaria de Estado da Cidade de Maputo e os seus órgãos técnicos, com vista à definição de uma agenda de implementação da estratégia delineada durante o presente Fórum.

 

Maria Cristina Pescante, Directora Adjunta e Regente Ad Interim, junto com Vicente Joaquim Imedede, Secretário de Estado na Cidade de Maputo