Eneida, a jovem eletricista que quer transformar a sua pacata vila com iluminação inteligente

Impulsionada com o gosto pela eletricidade, Eneida Piedade Domingos, 24 anos, ganhou inspiração para transformar com iluminação inteligente sua pacata vila no interior do distrito de Guro, após beneficiar-se do curso de eletricidade instaladora, promovida no âmbito da implementação do programa DELPAZ.

Filha de um ex-guerrilheiro da Renamo, diz que o conflito armado no seu distrito atrasou o desenvolvimento, mas também a forma de iluminação, que está desalinhada com a harmonia da luz, quando comparado com cidades evoluídas do país e do mundo.

“Essa foi a oportunidade que encontrei para me formar”, ela afirma, ressaltando que isto lhe permitiu ganhar conhecimento para tornar realidade seu sonho de ver a sua vila utilizando tecnologias na iluminação de casas e ruas. Ela destaca que, embora essa técnica já esteja sendo aplicada em outros lugares do mundo, ainda é pouco utilizada no seu distrito.

“O exemplo do uso de fotocélula nas casas, permite que o interruptor acione num determinado horário e o lugar seja iluminado sem precisar da presença humana”, além do uso de lâmpadas inteligentes controladas por aplicativos para poupar o consumo de energia nas casas, explica entusiasmada.

Enfatizou que “a formação me ajudou a ter ideias para fazer mudanças no meu distrito, como passar a usar coisas que muitas pessoas estão a usar no momento”, em cidades evoluídas.

Eneida finalizou o nível médio sem ter tido oportunidade de formação profissional, sobretudo, no ramo de eletricidade, sua paixão desde a infância e olha para a oportunidade como uma janela de mudança também para sua vida social.

“Eu sou mulher e consegui fazer o curso de eletricidade e então estou a encorajar outras mulheres para também seguirem este tipo de formação e conseguir ter emprego”, para ganhar independência económica e “não só esperar homens trabalhar”.

Insiste que a mulher deve ser ajudadora no lar e ser capaz por si só de sustentar a casa e “não apenas esperar no homem, esperar dinheiro de alguém, então ter formação é importante para conseguir sustentar a sua família”, anota, agradecendo o esforço do DELPAZ de poder dar oportunidade de formação aos jovens.

“Estou muito feliz agora, por o programa DELPAZ nos dar essa oportunidade de estudar, estou mesmo muito agradecida, pois apesar de que não foram todos os jovens formados no meu distrito formado, eu alcançarei outros jovens para ensinar e juntos conduzir a transformação para o distrito”, afirma Eneida Piedade Domingos.

Um total de 100 jovens já se beneficiaram de formação profissional nas áreas de carpintaria, serralharia, construção civil, mecânica e corte e costura nos cinco distritos de implementação do DELPAZ na província de Manica.

O programa DELPAZ dá especial atenção à criação de oportunidades para jovens, mulheres, bem como ex-combatentes e suas famílias.

Em todos os 5 distritos da província de Manica, milhares de pessoas já se beneficiaram do DELPAZ, que está a implementar projetos nas áreas de agricultura, infraestruturas e empreendedorismo, para assegurar a reintegração económica e social de todos os ex-combatentes, suas famílias e comunidades rurais atingidas pelo conflito para alcançar uma paz duradoura em Moçambique.

O programa do governo moçambicano e financiado pela União Europeia, e juntamente com UNCDF é implementado pela Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) nas províncias de Manica e Tete, enquanto a Agência de Desenvolvimento Austríaca (ADA) em Sofala.

 

 

 

Marcos Augusto: a transformação pessoal e a criação de oportunidades para jovens na sua comunidade

Marcos Augusto, com uma trajetória semelhante à de muitos jovens da sua aldeia, em Mudima, no interior noroeste de Gondola, na província de Manica, concluiu a 10ª classe de escolaridade e ficou longos anos à espera de uma oportunidade de emprego no setor público.

Faltava-lhe apenas um ano de “esperança” para o sonhado emprego no Estado – já que a idade limite de admissão é de 35 anos – quando, no início do ano, se candidatou a uma vaga de formação na área de carpintaria, numa iniciativa do DELPAZ, um programa do governo de Moçambique implementado pela Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS), que dá especial atenção à criação de oportunidades para jovens, mulheres, ex-combatentes e suas famílias.

“Candidatei-me e fui apurado nas duas fases que antecederam a formação, e, juntamente com outros formandos, fomos levados para uma capacitação que iniciou a 15 de maio de 2024, tendo eu escolhido a área de carpintaria”, explicou Marcos Augusto, que está agora a cumprir um estágio de um mês.

Realçou que a formação na área de carpintaria foi um impulso necessário para protagonizar a sua própria trajetória. Desde então, começou a escrever a sua própria história – diz Marcos Augusto – ao abraçar com dedicação a oportunidade de formação na área de carpintaria, uma arte com a qual pretende criar o seu autoemprego e ajudar a sua comunidade remota.

Da minha localidade até à vila sede de Gondola são 18 quilómetros, e para alguém viajar para fazer caixão para enterros, ou para mandar fazer janelas, portas e outros artigos, tornava-se oneroso. Daí que pensei em ser um carpinteiro da minha localidade”, argumentou.

O aprendizado na área, afirmou, foi essencial para pensar na construção de uma carreira de sucesso, que estará focada em ajudar a tirar do desemprego muitos jovens da sua aldeia, que se refugiam na criminalidade e no consumo de drogas.

“Há jovens que não estão a trabalhar, então, se eu apostar em autoemprego, com o kit a ser dado na formação e um pouco de valor, vou levar alguns jovens e empregar na minha carpintaria. Assim, esses jovens já não vão roubar nem terão vícios. Vão trabalhar na minha empresa, que pretendo que cresça”, defendeu.

A formação também proporcionou-lhe uma evolução que normalmente demoraria anos a alcançar, diz ele, observando que “já tinha uma inclinação para a carpintaria”, com base na convivência que tinha com o seu tio, que é carpinteiro.

“Gostaria que o projeto me desse material manual e eletrónico, porque o material elétrico é que faz mobília de forma mais rápida que o manual, o que ajudaria muito a atingir o meu objetivo de empregar muitos jovens da minha localidade que não estão a trabalhar”, adiantou.

Com a evolução de habilidades e confiança, Marcos Augusto agradece a oportunidade dada pelo DELPAZ e almeja que o programa alcance mais jovens das províncias atingidas pelo conflito armado.

Um total de 100 jovens já se beneficiaram de formação profissional nas áreas de carpintaria, serralharia, construção civil, mecânica e corte e costura nos cinco distritos de implementação do DELPAZ na província de Manica.

Celebração do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência

A Agência Italiana para a Cooperação ao Desenvolvimento (AICS), em colaboração com o Fórum das Associações Moçambicanas de Pessoas com Deficiência (FAMOD) e outros parceiros, celebrou hoje, em Maputo, o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. O evento decorreu sob o tema “Para a implementação da Lei sobre a Deficiência em Moçambique”, sublinhando a importância de transformar os princípios legislativos em ações concretas em benefício das pessoas com deficiência.

Este ano, a celebração em Moçambique assume um significado particularmente profundo graças à recente aprovação da Lei para a Promoção e Proteção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, a primeira legislação específica adotada pelo Parlamento Moçambicano, no dia 3 de abril de 2024.

O evento contou com a presença de figuras institucionais e representantes da sociedade civil, entre os quais o Presidente do FAMOD, Cantol Podja, o Embaixador dos Estados Unidos em Moçambique, Peter Vrooman, e a Vice-Diretora da AICS de Maputo, Maria Cristina Pescante. Estiveram também presentes representantes de ONG italianas como a ACAP, AIFO e CUAMM, bem como outros atores da sociedade civil empenhados na promoção da inclusão das pessoas com deficiência.

A celebração teve lugar no Parque dos Continuadores e iniciou-se com uma corrida simbólica, representando o espírito de inclusão e a promoção dos direitos das pessoas com deficiência. No parque, foram montados vários stands dedicados a projetos financiados pela AICS, como o INCLU.DE e o Programa para as Doenças Não Transmissíveis, ambos direcionados para o reforço da inclusão e dos direitos das pessoas com deficiência, com um enfoque especial no setor da saúde.

O Presidente do FAMOD, Cantol Podja, destacou que “a aprovação da primeira lei sobre os direitos das pessoas com deficiência representa uma oportunidade crucial para a sociedade refletir e renovar os esforços para eliminar desigualdades e violações de direitos humanos. Contudo, todos nós aqui presentes estamos cientes de que este é apenas um ponto de partida: a aprovação da lei marca o fim de uma fase e o início de outra ainda mais desafiante, a da sua efetiva implementação.”

A Vice-Diretora da AICS, Maria Cristina Pescante, reforçou o compromisso da cooperação italiana, afirmando: “A promoção dos direitos das pessoas com deficiência é uma prioridade histórica para a cooperação italiana.” Acrescentou ainda que a AICS colabora ativamente com instituições locais e organizações da sociedade civil italiana “em iniciativas direcionadas para a inclusão e o empoderamento das pessoas com deficiência, com um foco especial nos setores da saúde, do emprego e dos direitos humanos.”

A celebração reafirma o compromisso da AICS e dos seus parceiros em continuar os esforços para garantir o pleno respeito e a implementação dos direitos das pessoas com deficiência. Este compromisso ganha particular relevância face ao importante marco alcançado por Moçambique em 2024, com a aprovação da sua primeira lei dedicada aos direitos das pessoas com deficiência.

 

Cerimónia de graduação em Dôa forma novos profissionais em Electricidade e Construção

No dia 15 de outubro, a cidade de Dôa, localizada na Província de Tete, foi palco de uma cerimónia de graduação que celebrou a conclusão de 43 jovens bolseiros em cursos de Electricidade Instaladora e Pedreiros. Esses jovens, oriundos de diversas comunidades atendidas pelo programa DELPAZ, marcaram o início de uma nova fase profissional e pessoal, graças às competências adquiridas nas formações.

A cerimónia foi um momento de grande emoção, simbolizando o esforço e a dedicação dos formandos ao longo do processo de aprendizagem. Durante o evento, foram entregues kits de auto-emprego, compostos por ferramentas essenciais para que os graduados possam iniciar suas actividades profissionais com maior independência e segurança. Os kits incluem instrumentos para as áreas de electricidade e construção, dando aos formandos a base necessária para dar os primeiros passos nas suas actividades e aproveitar as oportunidades que surgirem.

A iniciativa tem como objetivo não apenas capacitar os jovens, mas também promover a autonomia financeira e o desenvolvimento comunitário nas áreas onde o programa DELPAZ actua. Através dessas formações, o programa contribui para a inclusão de jovens no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que fomenta o crescimento económico local.

Com a conclusão dos cursos e a entrega dos kits de trabalho, esses jovens estão agora mais preparados para enfrentar os desafios do mercado e contribuir com suas habilidades para o desenvolvimento das suas comunidades.

A cerimónia em Dôa representa um passo importante para a realização dos objectivos do programa DELPAZ, que busca, por meio da educação e capacitação, oferecer novas oportunidades de emprego e desenvolvimento pessoal a jovens de diversas localidades da Província de Tete.

Unidos pela Igualdade: O compromisso da AICS Maputo contra a violência de género

Em Moçambique, a violência de género é um dos principais desafios sociais que afeta milhões de mulheres, assumindo diversas formas, como abusos económicos, físicos e sexuais. Segundo dados do  Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), cerca de 35% das mulheres moçambicanas sofreu violência física ou sexual por parte do parceiro. Apesar dos progressos alcançados, as desigualdades de género continuam marcadas, com as mulheres a representarem apenas 27% dos membros do parlamento e a estarem sub-representadas nas posições de tomada de decisão.

No contexto internacional, a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim de 1995 estabeleceu objetivos fundamentais para a igualdade de género. Passados 30 anos desde a sua adoção, Moçambique continua a perseguir esses objetivos, embora a violência e a discriminação de género permaneçam desafios a ser enfrentados.

Na ocasião dos 16 Dias de Ativismo contra a violência de género, a AICS Maputo une-se à campanha UNiTE to End Violence Against Women and Girls, sob o tema “Towards 30 years of the Beijing Declaration and Platform for Action: UNiTE to End Violence Against Women and Girls”. Com o objetivo de eliminar a violência de género até 2030, a iniciativa visa garantir que cada mulher e rapariga possa viver sem medo.

Entre as iniciativas mais significativas da AICS, destacamos:

  • DELPAZ, um projeto que apoia o desenvolvimento económico local, melhorando os meios de subsistência nas zonas rurais como chave para a paz e a estabilidade, com um foco particular nas mulheres e grupos vulneráveis. O projeto envolve mais de 20.000 beneficiárias nas províncias de Manica e Tete, com 15.285 mulheres em Manica e 5.504 em Tete. Entre os resultados esperados, o DELPAZ visa melhorar as condições de vida das comunidades rurais, com uma atenção específica à igualdade de género.
  • ‘Coding Girls’, que promove o envolvimento feminino no setor tecnológico, melhorando o acesso das raparigas às tecnologias digitais e apoiando o desenvolvimento de competências em TIC. O projeto formou 586 alunas do ensino secundário (16-18 anos) e 80 raparigas universitárias, com a criação de 7 empresas femininas no setor das TIC, apoiadas pelo incubador de empresas CI-UEM – Espaço Inovação.
  • ‘As Mulheres do SUSTENTA’, que envolve mais de 8.000 mulheres, incluindo empresárias agrícolas e pequenas produtoras. O projeto promove a criação de 2 cadeias produtivas sustentáveis, reforçando as capacidades das instituições públicas e desenvolvendo medidas a apoiar o empreendedorismo feminino, a qualidade dos produtos agroalimentares e a sustentabilidade ambiental.

Hoje, vestidos de laranja, símbolo de esperança e de um futuro sem violência, a nossa equipa testemunha o seu compromisso em continuar a trabalhar por um mundo onde cada mulher e rapariga possa viver livre de medo e discriminação. 🧡

 

Participação da AICS Maputo na 11ª Edição do CEO Dialogue on Southern Africa organizada pela The European House Ambrosetti (TEHA): Promovendo o agronegócio e a integração na SADC

A sede da AICS em Maputo, em estreita coordenação com a Direção-Geral da AICS, com a Vice-Direção Técnica da AICS e o Escritório VII da AICS, participou na 11ª Edição do CEO Dialogue on Southern Africa, organizado pela The European House Ambrosetti (TEHA), que se realizou nos dias 14 e 15 de novembro de 2024 em Joanesburgo. Lançado em 2014, este fórum representa uma plataforma de referência na África Austral para líderes empresariais e institucionais, destinada a partilhar ideias, construir parcerias e explorar oportunidades de colaboração nas relações entre a Europa e a África, com um foco específico na região da SADC. O objetivo é promover oportunidades de negócios estratégicos e fortalecer as relações comerciais e políticas entre os dois continentes.

Neste contexto, a sede da AICS em Maputo, em colaboração com as Embaixadas de Itália em Maputo e Lusaka, com a ICE e outros parceiros, como a UNIDO e a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), apoiou a participação no Fórum de cinco empresas[1] provenientes de Moçambique (particularmente da província de Manica) e duas empresas da Zâmbia[2]. Estas empresas operam em sectores como a produção de ananás seco, a criação de cabras, o fornecimento de insumos agrícolas e a comercialização de frutas. Graças aos encontros Business to Business (B2B) organizados durante o Fórum, as empresas tiveram a oportunidade de explorar novas colaborações com CEO e dirigentes de entidades, públicas e privadas, da região.

Um dos temas centrais do Fórum foi o potencial da agroindústria na região. Neste âmbito, Paolo Enrico Sertoli, Director da sede da AICS em Maputo, participou no painel sobre “Unlocking Agroindustry Potential: Sustainable and Inclusive Growth for Business and Communities”. Durante a sua intervenção, destacou o papel fundamental da AICS no apoio ao agronegócio na região da SADC, financiando cadeias de valor agrícolas sustentáveis e promovendo parcerias público-privadas.

A título de exemplo, mencionou o projeto do Centro Agroalimentar de Manica (CAAM), uma das nove iniciativas-piloto previstas no âmbito do Plano Mattei para a África, lançado em janeiro de 2024 pela Presidência do Conselho de Ministros italiano. O objetivo é a construção de um centro de agroprocessamento na província de Manica (Moçambique) para apoiar as PME agrícolas, melhorando a produção, a transformação e o acesso aos mercados. Como salientado por Sertoli: “Graças à sua localização estratégica no Corredor da Beira, terá um impacto catalisador não só para Moçambique, mas também para os países vizinhos, promovendo o incremento do comércio regional e o desenvolvimento do sector agroalimentar.” O projeto é complementado por outras iniciativas igualmente financiadas pela Cooperação Italiana para o Desenvolvimento e pela AICS na região (entre outras, PRODAI e ZIM-MOZA), destinadas a promover o agrocomércio e a reduzir barreiras para facilitar o comércio regional.

 

 

O Fórum contou com a participação de ilustres personalidades, entre as quais Enrico Letta, ex-Presidente do Conselho de Ministros da República Italiana, Mthuli Ncube, Ministro das Finanças do Zimbabué, Pietro Mininni, CEO da The European House – Ambrosetti Africa, Alberto Vecchi, Embaixador de Itália na África do Sul, Lorenzo Galanti, Diretor-Geral do ICE, Riccardo Zani, Diretor Executivo da INALCA, Raffaele Cattaneo, Subsecretário para as Relações Internacionais e Europeias da Região da Lombardia, e Jeffrey Sachs, Diretor do Center for Sustainable Development na Universidade de Columbia. Participaram também os Embaixadores de Angola e Moçambique, juntamente com ex-ministros de vários países.

A participação da sede da AICS em Maputo no CEO Dialogue on Southern Africa representa um passo decisivo na promoção do desenvolvimento sustentável e da inclusão socioeconómica na região da SADC. A partir de 2024, a sede de Maputo alargou o seu âmbito de atuação, adicionando Angola e Zâmbia aos três países já abrangidos (Moçambique, Malawi e Zimbabué), alcançando assim um total de cinco países da SADC e uma população de 148 milhões de habitantes. As colaborações iniciadas demonstram o forte compromisso da AICS em fortalecer o sector agroindustrial para enfrentar desafios comuns como os efeitos do El Niño e as crises alimentares, apostando em parcerias público-privadas para impulsionar um crescimento inclusivo e sustentável.

 

[1] As 5 empresas de Moçambique que participaram no Forum foram: Agromaco, Luteari – Insumos e Serviços Agrícolas, Novo Mundo Comércio e Serviços, Agropecuária Frutas de Révuè, Cooperativa Frutas de Báruè.

[2] As 2 empresas da Zâmbia que participaram no Forum foram: Zamgoat Products e Northwest Crown Fruits.

Moçambique – O café de Moçambique protagonista das páginas da revista “Coffee Magazine” também graças ao apoio da AICS

 

A história do café de Moçambique recebeu uma importante visibilidade no número 49 da revista “Coffee Magazine[1]”. A publicação sublinha que o país é “casa de espécies únicas e endémicas de café ao longo da sua costa”. Um exemplo notável é o Coffea zanguebariae, cultivado no arquipélago das Quirimbas, em particular na Ilha de Ibo. Em 1906, este café recebeu uma medalha de ouro na Feira Internacional de Lisboa, devido ao seu sabor e aroma únicos, que o distinguem das variedades robusta e arábica. A Agência Italiana para a Cooperação ao Desenvolvimento (AICS), através do projeto MAIS VALOR[2], apoia a exportação e a comercialização do café de Ibo.

O artigo explora também o cultivo de outra variedade de café, a Coffea racemosa, que tem sido tradicionalmente produzida na Província de Inhambane. Com o passar do tempo, Moçambique alargou a produção de café arábica em outras províncias e regiões do país, como Niassa, Gorongosa, Tete e Chimanimani. Atualmente, mais de 13 empresas estão envolvidas na produção de café, envolvendo cerca de 4.000 agricultores.

Este progresso no setor do café atraiu atenção internacional, culminando com a adesão de Moçambique à Organização Internacional do Café[3] (ICO) em julho de 2023. Um ano depois, em sintonia com este reconhecimento internacional, a AICS, em colaboração com o Ministério da Agricultura e do Desenvolvimento Rural (MADER), a Associação Moçambicana dos Cultivadores de Café (Amocafé), a UNIDO e outros parceiros, organizou o primeiro Festival do Café de Moçambique, nos dias 14 e 15 de junho de 2024.

 

O festival, que reuniu mais de 8.000 participantes, apresentou as diversas variedades de café moçambicano, com vários painéis e apresentações dinâmicas conduzidas por especialistas de países como Brasil, Itália, Etiópia e Portugal. O evento foi uma celebração do café moçambicano, destacando também a união de dois produtos italianos famosos: o café e o gelado, com a degustação de cinco tipos de gelado ao café de Moçambique. O festival recebeu numerosos elogios, com a revista a sublinhar, por exemplo: “os participantes louvaram a estrutura do evento, a qualidade das apresentações e a experiência global”.

Este evento foi um prelúdio promissor para reforçar o setor do café do país, com o objetivo de que Moçambique se torne um ator relevante no mercado global do café. A Cooperação Italiana ao Desenvolvimento e a AICS, também através do Plano Mattei (no âmbito do qual estão previstas novas iniciativas setoriais a serem formuladas em breve), estão fortemente empenhadas em colaborar com o setor privado, incluindo importantes produtores italianos como Illy e Lavazza, além de envolver as autoridades governamentais e os parceiros internacionais, para promover ainda mais o desenvolvimento do setor do café.

A referência na Coffee Magazine representa um passo adicional e importante em direção a um reconhecimento progressivo das potencialidades do setor em Moçambique.

 

[1] A Coffee Magazine foi lançada em 2012, inspirada pela crescente cultura do café, especialmente na África do Sul. A revista dedica-se a celebrar o setor do café, abordando baristas, cafés, competições e inovações dentro da indústria. Ao longo dos anos, a revista ganhou popularidade, sendo publicada trimestralmente em formato impresso e digital.

[2] Com o financiamento da Cooperação Italiana ao Desenvolvimento e da Agência Italiana para a Cooperação ao Desenvolvimento (AICS), a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) iniciou uma intervenção focada na redescoberta das tradições locais e na valorização da agro-biodiversidade que caracteriza o território de Ibo. Em 2019, foi lançado o projeto Mais Valor, com o objetivo de relançar o “café de Ibo” para aumentar a resiliência da população local.

[3] A Organização Internacional do Café (OIC), fundada em 1963 e com sede em Londres, promove a cooperação entre os países produtores e consumidores de café, apoiando o desenvolvimento sustentável da indústria. Atualmente, conta com 49 membros, entre os quais países produtores e consumidores de café.

Moçambique – Dia Mundial da Alimentação – A Sede da AICS em Maputo renova o seu compromisso com a nutrição e a resiliência no setor agrícola na Província de Manica

Mozambique, Chimoio, Manica © Andrea Borgarello

Moçambique é um dos países mais afetados pelas alterações climáticas. Segundo o Índice Global de Risco Climático, publicado em 2021 pela ONG alemã Germanwatch[1], o país foi classificado como o mais vulnerável do mundo a estes impactos. O relatório destaca as consequências já sofridas por Moçambique, como os ciclones Idai e Kenneth, além de longos períodos de seca.

Atualmente, a Província de Manica, no centro do país, enfrenta os efeitos do El Niño[2], que provocou uma grave seca, afetando cerca de 1,8 milhões de pessoas. Fevereiro de 2024 foi o mês mais seco dos últimos 100 anos[3].

Bartolomeu Tenesse, beneficiário do programa DELPAZ[4], descreve a situação: “A fome este ano é assustadora. Existem famílias que se alimentam com farelo de milho, frutas e tubérculos selvagens. Outros passam dias sem comer“. Aida Diekson, agricultora no distrito de Macossa e beneficiária do projeto Mulheres no Sustenta, financiado pela Agência Italiana para a Cooperação ao Desenvolvimento (AICS)[5], conta que “Este ano não deu nada. Os tomates, as cebolas e as alfaces secaram.”

Os números confirmam estes relatos alarmantes, com 166.126 pessoas a enfrentarem uma insegurança alimentar aguda e cerca de 49.384 em situação de emergência na Província de Manica. Isso resulta em 39,1% das crianças com menos de cinco anos a sofrerem de desnutrição crónica.

Diante deste cenário alarmante, a AICS uniu esforços com o Governo do Moçambique para combater a fome e aumentar a produção agrícola na Província de Manica[6]. Estas ações são ainda mais relevantes, considerando os desafios contínuos impostos pelas alterações climáticas e a crescente insegurança alimentar no país.

Para reforçar estes esforços, a AICS, em colaboração com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), celebrou o Dia Mundial da Alimentação em Chimoio, capital da Província de Manica, sob o tema “O Direito ao Alimento para uma Vida e um Futuro Melhor“. Neste contexto, foi organizada uma série de atividades na Escola do Centro Nhamatsane, que refletem o compromisso comum em garantir que todos tenham acesso a alimentos nutritivos e de qualidade.

No seu discurso, Giovanni Barbagli, Responsável por Género e Desenvolvimento Rural e representante da Agência em Chimoio, sublinhou o compromisso da AICS na Província de Manica, destacando as várias intervenções[7] em curso que visam melhorar a segurança alimentar e a nutrição.

Ele também salientou, por exemplo, que a agricultura é um dos cinco pilares essenciais do Plano Mattei, aprovado este ano pelo Governo italiano. Barbagli mencionou ainda o Centro Agroalimentar de Manica (CAAM)[8], um investimento de 38 milhões de euros que será construído em Chimoio.

Este centro desempenhará um papel crucial na promoção de cadeias de valor agrícolas justas e inclusivas, ajudando a reforçar a resiliência dos agricultores e das comunidades face a fenómenos extremos, como o El Niño.

Garantir um mercado seguro para as produções locais é fundamental para estimular o crescimento agrícola e utilizar melhor os recursos naturais da Província. O CAAM visa estabilizar os preços dos produtos agrícolas, aumentando o preço de compra aos produtores, reduzindo o número de intermediários e criando uma cadeia curta entre produtor e consumidor.

Além disso, pretende valorizar os produtos agrícolas através da lavagem, calibração, embalagem, venda direta e por grosso; conservação e transformação das matérias-primas para a produção de sumos, polpas, óleos, óleos essenciais, frutas secas, desidratadas, etc. Uma vez satisfeito o mercado interno, o CAAM propõe-se olhar para a exportação, promovendo as excelências agrícolas do Moçambique no mercado internacional.

Situada no corredor da Beira, a Província de Manica é estratégica para a segurança alimentar do país. O CAAM não só adotará tecnologias verdes sustentáveis e valorizará o papel das mulheres, mas promoverá também a economia circular através de estudos técnicos que melhorarão a capacidade da região de enfrentar os desafios impostos por eventos climáticos adversos.

Celebrando o Dia Mundial da Alimentação, a AICS reafirma o seu compromisso em apoiar as comunidades de Manica, duramente atingidas pela seca provocada pelo El Niño. Através de projetos agrícolas e de resiliência climática, a agência procura garantir o acesso a alimentos seguros e nutritivos, contribuindo para mitigar os efeitos da insegurança alimentar na região.

 

 

[1] O próximo relatório será publicado em 2025, apresentando uma metodologia atualizada para melhorar a comparabilidade entre as classificações dos países e um conjunto de dados mais sustentável sobre os impactos climáticos para publicações futuras.

[2] O El Niño é um fenómeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que provoca perturbações nos padrões atmosféricos. Na província de Manica, em Moçambique, este fenómeno tem estado associado a graves secas, particularmente entre 2015 e 2016, quando as precipitações diminuíram até 50%. Atualmente, a região está a enfrentar novamente desafios relacionados com o El Niño, com previsões de seca que afetam a produção agrícola e aumentam a insegurança alimentar.

[3] Segundo dados do relatório publicado pelo OCHA, “El Niño Humanitarian Overview Southern Africa

[4] O DELPAZ, financiado pela União Europeia em Moçambique, é um programa do governo moçambicano que trabalha para consolidar a paz em 14 distritos das províncias de Manica, Tete e Sofala. Na província de Manica, a Agência Italiana para a Cooperação ao Desenvolvimento (AICS) apoia o desenvolvimento económico, colaborando com as autoridades locais e com um consórcio de organizações da sociedade civil italianas e locais, liderado pela Helpcode

[5] A AICS está atualmente a financiar e implementar 7 intervenções na Província de Manica (Mulheres no Sustenta, PRODAI, Programa de Apoio ao Desenvolvimento Rural – PADR, DELPAZ, MAIS VALOR 1, MAIS VALOR 2 e CAAM), cada uma com diferentes parceiros implementadores, mas todas com um objetivo comum: erradicar a fome. Estas intervenções concentram-se no apoio a pequenas e médias empresas agrícolas, com iniciativas que incluem a comercialização dos seus produtos, a criação de espaços verdes, a distribuição de sementes, a instalação de sistemas de irrigação, a agroflorestação, a apicultura, etc., promovendo assim uma agricultura mais resiliente, sustentável e inclusiva.

[6] Para além dos vários projetos financiados pela AICS na Província de Manica, que visam fortalecer a segurança alimentar, em maio de 2024, entregámos, a pedido do Secretário de Estado da Província, 1.100 kg de sementes de feijão.

[7] (i) o PSSR (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Rural), realizado em parceria com o FAR, que tem como objetivo apoiar a agricultura comercial e o desenvolvimento da economia local, através do fortalecimento dos pequenos produtores e das organizações comunitárias, bem como das micro, pequenas e médias empresas agrícolas, por meio de serviços de assistência técnica e financeira, acesso à terra e formalização do seu uso, a fim de melhorar as capacidades produtivas e facilitar o acesso ao mercado da produção agroalimentar;

(ii) a iniciativa denominada “As Mulheres no SUSTENTA”, implementada por um consórcio de OSC italianas e moçambicanas, representadas pela Progettomondo, que promove a participação das mulheres na economia rural, através do apoio à inovação, com especial atenção para os processos produtivos e a valorização das cadeias de valor no setor agroalimentar;

(iii) Pro-DAI, iniciativa realizada pela FAO, que visa reduzir a pobreza e melhorar a segurança alimentar e nutricional através da transformação de sistemas alimentares diversificados, inovadores, eficientes, inclusivos e sustentáveis, e a adoção de modelos sustentáveis de intensificação da produção agrícola mediante práticas adequadas de gestão do solo e a promoção de sistemas agroflorestais com vista a reforçar a sustentabilidade económica, social e ecológica;

(iv) MAIS VALOR II – Melhorar o desenvolvimento inclusivo e sustentável das cadeias de aprovisionamento agrícola, iniciativa de assistência técnica implementada pela UNIDO, que visa aumentar as capacidades locais, a atualização tecnológica e a transferência de know-how para reforçar os modelos de agronegócio e contribuir para o desenvolvimento da agroindústria em Moçambique, concentrando-se na promoção do valor acrescentado e na melhoria da transformação agrícola, com intervenções nos setores da horticultura, da produção de café e de cereais.

[8] No dia 8 de julho de 2024, foi assinado um acordo para o desenvolvimento de um centro agroalimentar na província de Manica, Moçambique, no âmbito da Estrutura de Missão para a África Austral do Plano Mattei. O acordo foi subscrito por Stefano Gatti, Diretor-Geral para a Cooperação ao Desenvolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e por Paolo Lombardo, Diretor de Cooperação Internacional da Cassa Depositi e Prestiti, juntamente com Ernesto Max Elias Tonela, Ministro da Economia e Finanças de Moçambique. Este projeto, no valor de 38 milhões de euros, visa fortalecer a segurança alimentar e promover a agricultura sustentável.

Cerimônia de inauguração dos trabalhos de infraestrutura da Estação de Biologia Marinha de Inhaca.

No dia 14 de outubro, realizou-se na ilha de Inhaca (Província de Maputo, Moçambique) a cerimónia de inauguração dos trabalhos de requalificação/construção de parte das infraestruturas da Estação de Biologia Marinha de Inhaca (EBMI), da Universidade Eduardo Mondlane (UEM). O evento contou, entre outros, com a presença do Embaixador de Itália em Moçambique, Gianni Bardini, do Vice-Embaixador, Eugeniu Rotaru, do Director da Agência Italiana para a Cooperação ao Desenvolvimento (AICS) – Sede de Maputo, Paolo Enrico Sertoli, e do Magnífico Reitor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Manuel Guilherme Júnior, juntamente com outras autoridades governamentais, doadores e representantes das autoridades locais e religiosas.

A AICS está a apoiar a EBMI através de vários programas, relacionados com o setor ambiental (em particular, Mangrowth, RINO e BioForMoz), contribuindo para a formação de recursos humanos e para a reabilitação e construção de algumas infraestruturas, com o objetivo de apoiar a transferência de conhecimentos e a formação das competências científicas locais, na tentativa de “descolonizar” a investigação e a gestão dos recursos naturais de Moçambique.

Entre os trabalhos realizados na EBMI, destacam-se a requalificação dos dormitórios e do refeitório, além da nova construção do laboratório de investigação, que dotará a Estação de espaços e equipamentos adequados para realizar pesquisas científicas tanto em ambientes secos como húmidos.

A delegação, recebida pelas altas autoridades do Município de Inhaca, teve a oportunidade de visitar as infraestruturas. Os novos dormitórios, com capacidade para acolher 58 estudantes e docentes, assim como o refeitório e o laboratório, são indispensáveis para proporcionar condições ótimas aos investigadores nacionais e internacionais envolvidos no estudo da rica biodiversidade da ilha, que é em grande parte identificada como reserva natural e alberga vários biomas, desde os recifes de corais mais a sul do planeta, até dunas, mangais e áreas húmidas, e acolhe, entre outras coisas, famílias de dugongos (considerada a nível mundial uma espécie vulnerável). Durante a cerimónia, foi possível constatar a utilização das novas infraestruturas que, nestes dias, acolhem estudantes italianos e moçambicanos que participam na segunda edição da Summer School, um programa que, com o apoio do projeto Mangrowth, se foca no estudo dos habitats de mangais. A delegação teve a oportunidade de interagir com os estudantes e conhecer os seus trabalhos.

A delegação também visitou as infraestruturas que acolherão o laboratório, que terá a capacidade de receber pelo menos 10 investigadores simultaneamente. O laboratório é composto por um laboratório húmido, utilizado para o estudo de amostras biológicas marinhas em condições controladas, e um laboratório seco, destinado à análise de amostras predominantemente terrestres e ao processamento de dados. Estes dois tipos de laboratórios são fundamentais para uma investigação completa sobre os ecossistemas marinhos e costeiros da ilha de Inhaca. De facto, a EBMI acolhe investigadores moçambicanos da UEM e de outras instituições nacionais, assim como de instituições da África Austral, para realizar investigações sobre a proteção da biodiversidade marinha.

O Embaixador de Itália em Moçambique, Gianni Bardini, sublinhou que “A investigação e a proteção do ambiente marinho são ainda mais cruciais no contexto da preservação ambiental, uma vez que os danos causados aos recursos marítimos, embora menos visíveis do que os terrestres, são enormes.” Reiterou também que “O ambiente é fundamental para todos nós, sendo essencial para garantir e promover um futuro para as novas gerações. Temos uma responsabilidade moral importantíssima: entregar o planeta aos jovens nas melhores condições.”

Por sua vez, o Reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Manuel Guilherme Júnior, agradeceu ao governo italiano “o nosso parceiro, que nos tem apoiado nos últimos 45 anos. Esta cooperação foi importante para a UEM e permitiu que a UEM chegasse às mãos dos moçambicanos, através das ações de ensino, no âmbito da investigação e também da extensão e da inovação.” Alertou também sobre a importância da sustentabilidade, “não apenas em termos de ciência e investigação, mas também na preservação das infraestruturas aqui construídas, para que possam durar e beneficiar não só esta geração, mas também as futuras, que precisarão destas estruturas.”

O evento terminou com uma visita ao Museu da EBMI, onde um técnico destacou a rica história da estação, fundada em 1951, e as mais de 12.000 espécies registadas em Inhaca, incluindo mais de 150 espécies de corais, 300 espécies de aves e quatro espécies de tartarugas. O técnico apresentou alguns exemplares, como um esqueleto de dugongo, um animal em via de extinção que, graças aos esforços dos parceiros, incluindo a Cooperação Italiana, está a voltar às águas de Inhaca.

Evelina, a ex-cozinheira de Afonso Dhlakama que usou pela primeira vez semente certificada

Como tradição familiar, Evelina Zacarias, tinha guardado no celeiro uma porção de grãos de milho da sua colheita para usar como semente na campanha agrícola seguinte, em 2023, mas as mudanças climáticas, que tem provocado seca na sua aldeia, desafiaram a prática.

Ph. André Catueira

“Sempre guardávamos os grãos que pareciam mais saudáveis. Isso é tradição, desde os meus avos, mas com as falhas do ciclo de chuva, as sementes germinavam e definhavam ao florir por causa do sol nesta fase e, perdíamos assim a maior produção, escapando uma e outra espiga” no campo, que depois era colhido e guardado novamente para sementeira, explica.

A ex-guerrilheira da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), foi reintegrada após sua recente desmobilização na aldeia em Zivale, localidade do interior de Muda Serração, distrito de Gondola, na província de Manica, onde além de se dedicar a família, ocupa-se da agricultura para se sustentar.

Ela filiou-se a uma associação de camponeses, no âmbito do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) Social, e recebeu pela primeira vez semente certificada, através de uma linha de apoio do DELPAZ.

“Recebemos a semente certificada e lancei pela primeira vez no campo. Desconfiada, reservei uma parcela onde lancei a semente familiar (tradicional), mas tudo que germinou morreu por causa do sol. Toda a comida que tenho hoje saiu da semente certificada”, explicou.

“A semente certificada melhorou muito minha renda de produção no campo. Não tinha ideia de que a seca era provocada por mudanças climáticas, e que era preciso responder com novas técnicas agrícolas e sementes melhoradas que os técnicos do DELPAZ estão a nos ensinar”, observa, enquanto arruma molhos de capim, que vão cobrir um novo celeiro.

Evelina Zacarias, 50 anos, que se reintegrou em Zivale, combateu durante 18 anos pela guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), servindo como cuidadora dos filhos do líder histórico e depois como cozinheira de Afonso Dhlakama, e foi desmobilizada duas vezes, a última em Junho de 2020.

Evelina foi recrutada para a guerrilha aos 7 anos em 1981, na guerra civil que durou 16 anos, e foi desmobilizada pela primeira vez em 1994, pela missão de paz das Nações Unidas em Moçambique (Onumoz). Após 18 anos na vida civil, voltou a integrar a guerrilha para “lutar pela democracia” em 2012, quando Afonso Dhlakama convocou e reagrupou os ex-guerrilheiros na serra da Gorongosa, em Sofala.

Ph. André Catueira

“Fui recrutada juntamente com o meu pai em Mpunga e dai com o general Ossufo (Momade) partimos para Gorongosa, seguimos para uma base em Maringue e depois para Massala”, num trajeto feito durante meses a pé, conta, realçando que foi em Massala onde foi desmobilizada pela primeira vez.

Agora mãe de 8 filhos, todos nascidos durante os intervalos dos conflitos, teve um treinamento militar inicialmente para o combate, mas depois foi destacada a cuidar dos filhos do presidente Afonso Dhlakama, a quem também serviu como cozinheira mais tarde.

“Havia casas onde estavam as esposas do líder e as crianças, e nos cuidávamos deles. Lavávamos suas roupas nos rios e cozinhávamos para eles até a guerra terminar. O presidente Dhlakama vinha sempre lá onde estavam as esposas e filhos, e dava-nos garantias que um dia a guerra iria terminar, e isso sucedeu até que fomos desmobilizados pela primeira vez em 1992″, conta com uma energia invejável nos gestos.

A ex-guerrilheira lembra que na primeira desmobilização, voltou para a aldeia natal em Búzi, com uma catana, um machado, uma enxada e um cheque do banco, que nunca chegou a levantar, porque ardeu na palhota onde vivia durante uma queimada descontrolada.

Ela foi novamente desmobilizada no âmbito do processo de Desmobilização, Desarmamento e Reintegração (DDR) – que resulta do acordo de paz assinado em 2019 – esta a dedicar a vida a família e a agricultura.

“Estamos a aprender a vencer a seca com novas formas de produzir e isso fara a nossa renda muito melhor para cuidarmos a nossa família”, revela Evelina, num habitual sorriso discreto que destaca os traços negros que atravessam o seu rosto.

Ela tem esperança de um dia mecanizar a sua agricultura, e abandonar a enxada de cabo curto, que usa para cultivar seus dois hectares de terra, exclusivamente dedicados ao cultivo de milho e gergelim.

Os ex-guerrilheiros fazem parte de milhares de beneficiários do Programa DELPAZ que está a assegurar a reintegração económica e social de todos os ex-combatentes, suas famílias e comunidades rurais atingidas pelo conflito para alcançar uma paz duradoura em Moçambique.